Mal se iniciava o ano de 1928 e o duríssimo combate contra o cangaço
lampiônico não dava qualquer sinal de trégua. De acordo com informações do tenente da força pública de Pernambuco, Higino Belarmino, no dia 21 de janeiro, Lampião e seus asseclas
estavam acoitados no Estado de Alagoas. Quatro volantes pernambucanas,
inclusive a comandada por Higino, buscando, desesperadamente, o paradeiro dos bandoleiros,
conseguiram desalojá-los daquela zona. Theophanes, de posse desta importante informação,
telegrafou para o Chefe de Polícia, Eurico de Souza Leão, informando-o que: “…se suas forças não tivessem atingido aquele
Estado, Lampião iria se demorar muito mais tempo diante da proteção encontrada”.
Lampião, que, em anos anteriores, chegou a comandar 120 homens, estava, naquela
oportunidade, com poucos elementos, desmuniciados e preocupados com a execução
da “Lei do Diabo”, idealizada por Eurico de Souza Leão e que não poupava seus
coiteiros. Com aquela lei, torceu-se, de vez, o parafuso no Sertão. Com o desaparecimento
dos antigos acobertadores, os bandidos ficaram, assim, a correr dia e noite,
sem encontrar um abrigo seguro e sem ver os velhos amigos que se tornaram
inimigos.
Recebendo confirmação que, daquela vez, Souza Leão realizaria seu antigo sonho, que era mostrar a
limpeza do flagelo do cangaceirismo, Theophanes informa-o que Vila Bela (atual
Serra Talhada) – sede do comando geral das forças volantes – encontrava-se
orgulhosa e entusiasmada, pois, era a primeira vez que um Chefe de Polícia iria
visitar nosso sertão.
O roteiro traçado passaria pelas principais
cidades sertanejas: Alagoa de Baixo, Afogados de Ingazeira, Flores, Triunfo,
Vila Bela, Belmonte, Ouricuri, Salgueiro, Leopoldina, Petrolina, Boa Vista,
Cabrobó, Belém e Floresta.
Daremos, entretanto, destaque especial para a
cidade de Petrolina, que recebia, pela primeiríssima vez, a visita de uma
autoridade do Governo do Estado e fez uma excelente cobertura jornalística.
De acordo com o Jornal de Petrolina “O Pharol” – periódico
de publicação semanal, fundado em 1915, propriedade e direção de João Ferreira
Gomes – , este destacava que “...na comitiva vinha o prezado amigo Theophanes, digníssimo comandante das
forças em operações contra os bandoleiros”. Theophanes havia feito muitos
amigos naquela cidade, pois, havia sido delegado de Petrolina entre dezembro de
1924 até o dia 23 de setembro de 1926, oportunidade em que foi nomeado comandante
geral das forças volantes que agiam no Alto Sertão Pernambucano, com sede,
inicial, em Salgueiro.
O então governador, Sérgio Loreto, pressionadíssimo
pela imprensa local e opinião pública, faltando, apenas, 23 dias para o término
do seu mandato, nomeia Theophanes para o comando no Alto Sertão, uma
providencia que se impunha de há muito tempo. À medida que fosse limpando a
região, o lendário militar seguiria para Floresta e, em seguida, Vila Bela.
Noticiava-se, inclusive, que aquele
governador, durante os quatro anos de seu mandato nada fez de profícuo para
livrar as populações sertanejas do seu maior flagelo. Corriam informações,
verídicas, que ele, tendo noticia dos telegramas que as vítimas do banditismo
tinham enviado ao futuro mandatário pernambucano, Estácio Coimbra, e divulgados
pela imprensa do Rio, tinham despertado revolta e tocado bem fundo ao coração
dos sulistas.
O Jornal do Recife, de 13 de novembro de
1926, afirmava que havia acontecido um encontro secreto, no palácio, entre o
governador interino, Júlio de Melo, seu chefe de Polícia, Silva Rego e
Theophanes, não sendo permitida a presença de nenhuma outra pessoa, cuja temática
versava sobre o combate sério, eficaz e
verdadeiro ao banditismo que assolava os nossos sertões. Afirmava, também, que
um alto figurão do Sergismo (acredito que tenha sido o próprio comandante da
Força Pública, o coronel João Nunes) ficou sentado na antessala, durante hora e
meia, esperando que a conferência terminasse.
Com o evidente prestígio de Theophanes,
assegurava aquele periódico, que algum despeitado, do governo anterior, achava
que isso era um desprestígio a pessoa altamente colocada na policia do Estado.
Em 15 de novembro de 1926, Theophanes
assumiria, pela segunda vez, o comando geral das forças em operações no sertão.
Agora a história do combate efetivo e direto contra o cangaceirismo era outra,
não se tinha mais as intrigas políticas palacianas que afastaram aquele brioso
oficial do comando em 1924, quando este quase liquidou, de vez, com o império
de Lampião. Vide publicação neste jornal, no mês de março do corrente ano,
intitulada: A vida de Lampião fica por um
fio.
Theophanes, no dia 25 de novembro, desafiando, mais
uma vez, a politicagem local, comunicava ao chefe de polícia que em Vila Bela,
sede do comando, existia pessoas de representação muito amigos do bandido Lampião
e que com ele se correspondiam em termos íntimo e reservado. Comunicava, ainda,
que pelo prestigio que gozam, perante o mesmo, sempre sabem paradeiro do grupo
e se entendem com os chefes intercedendo em benefício dos que caem no desagrado
do celerado por qualquer pretexto. Afirmou que existiam na classe baixa,
parentes e indivíduos outros que faziam o serviço de espionagem e se encarregavam
de efetuar compras para o grupo dos bandoleiros. Afirmou, também, que estudava,
desde que ali chegou, a situação daquele município. Theophanes finalizou sua
comunicação asseverando que se encontrava com seu espírito revoltado com tanta
baixeza de caráter e covardia prejudiciais a extinção do banditismo e que havia
ordenado severas providências para ricos e pobres que confabulassem a facilitar
as ações dos fora da lei.
No dia 12 de dezembro de 1926, Estácio
Coimbra assumiria o governo de Pernambuco e, Eurico de Souza Leão, tomaria
posse na Chefatura de Polícia.
Sobre o raid
vitorioso, daquela histórica visita, vamos encontrar na edição, nº 19, de 08 de
fevereiro de 1928, do jornal “O Pharol”,
o seguinte:
“Foi um
fato invulgar e por isto mesmo constituiu um acontecimento que a nossa terra
não estava acostumada a presenciar – a visita do Dr. Eurico de Souza Leão,
enérgico chefe de polícia, o primeiro auxiliar de Governo do Estado que se
abalou da capital, pelo interior, visitando as principais localidades
sertanejas de Pernambuco, fiscalizando as zonas flageladas pelo banditismo.
Pela
primeira vez Petrolina assistiu cheia de júbilo, a entrada de carros da capital
em ruas de nossa Urb, como a anunciarem que, com a vinda do Dr. Souza Leão,
estava inaugurada uma nova era para esta terra tão esquecida dos nossos
governos, isolada pela deficiência de transportes, sem estradas ao menos
carroçáveis que facilitem a comunicação deste com outros municípios vizinhos,
obra da má política e dos maus administradores.
Falamos em estradas neste
momento, porque sendo Petrolina o último município de Pernambuco, o mais
distanciado da capital, vive completamente alheio à vida Estado, parecendo um
filho adotivo criado em casa do vizinho, que neste caso é a Bahia, que lhe
exige muito do seu trabalho em troca das comodidades que lhe proporciona.
O Dr. Souza Leão deve estar
convencido que um dos maiores fatores para a extinção do banditismo é
inegavelmente o prolongamento da Central de Pernambuco, até aqui, pois a
estrada de ferro cortando os nossos sertões mudará os hábitos do povo e
modificará os costumes.
A CHEGADA
Seriam
18 horas, do dia 28, quando ao acender das luzes, bombões e várias girândolas
de foguetes anunciavam a entrada, na cidade, na Rua Souza Leão do carro em que
viajava o Dr. Souza Leão, precedido de mais 3 carros em que viajavam as pessoas
de sua comitiva.
A
saudação oficial foi feita pelo nosso inteligente confrade Francisco de Barros,
adjunto da promotoria pública em exercício, que saudou sua Excia. em nome de
Petrolina.
Num
belíssimo improviso Dr. Souza Leão, disse da sua missão pelo interior do
Estado, isto é, fiscalizar a perseguição ao banditismo, esse grande mal que é a
nossa maior vergonha; exigir a coadjuvação de todos os sertanejos para acabar
com esse cancro que vem corroendo o organismo do Estado.
Em
seguida dirigiu-se para a residência do Sr. Luiz Ignacio de Souza, chefe
político local e seu particular amigo, onde foi hospedado.
O Major
Theophanes Torres, digníssimo comandante das forças do interior, a quem em boa
hora foi confiada a espinhosa missão de dar combate ao banditismo, o coronel
Antônio Japiassú, chefe político de Rio Branco, o Dr. Antônio Freire,
secretário do Dr. Chefe de polícia e o Capitão Nelson Leobaldo, foram
hospedados no confortável edifício da “21 de Setembro”, previamente preparado
para isso.
Depois
de breve descanso teve lugar o banquete, oferecido a sua Excia. no vasto salão
da Pensão Progresso.
Na
manhã do dia 29, o Dr. Souza Leão e sua comitiva visitaram o Colégio Dom Bosco
e o nosso amado antístite Dom Malan.
Às 15 horas,
sua Excia. e ilustre comitiva foram ao Jockey Clube, que nesse dia dedicou-lhes
um festival hípico.
Ao Dr.
Eurico e membros da comitiva foram conferidos diplomas de beneméritos da nossa
banda musical “21 de Setembro”.
ALMOÇO AO MAJOR THEOPHANES
Amigos
e admiradores do Major Theophanes, ofereceram-lhe lauto almoço na Pensão
Progresso, no dia 29.
Usando
da palavra o Dr. Pacífico da Luz ofereceu o almoço ao Major Theophanes como
prova de estima e alto apreço de que goza nesta terra o bravo militar patrício;
o nosso diretor por si e pelo “O Pharol”, Aureo Vianna pelo “O Momento”,
brindando ambos ao valoroso oficial da nossa milícia.
O Major
Theophanes, em breve palavras, transmitiu a palavra ao jornalista Antônio
Freire seu amigo e companheiro de excursão, para manifestar os seus
agradecimentos a todos, o que o Dr. Freire fez com muita felicidade, arrancando
merecidos aplausos.
A nota
mais importante do almoço foi a cordialidade e a intimidade reinante entre os
convivas.
O REGRESSO
Por
falta de estrada carroçável para Boa Vista, o Dr. Souza Leão e sua comitiva
regressaram na manhã de 30, transportando os carros para Juazeiro e dali
seguindo para Curaça, Boa Vista, Cabrobó, Belém e Floresta”.
Em sua breve estadia na cidade de Vila Bela, destaco
que Eurico tornou-se compadre de Theophanes, ao batizar o filho daquele bravo e
lendário militar, o menor Geraldo Ferraz de Sá Torres, vilabelense, nascido no
dia 02 de janeiro de 1928.
Lampião seria escorraçado, definitivamente, pelas
forças pernambucanas para o Estado da Bahia, em 21 de agosto de 1928, sendo
acompanhado de Virgínio, seu cunhado, conhecido como Moderno, Ezequiel, seu
irmão, apelidado de Ponto Fino, Luiz Pedro, compadre e homem de sua confiança,
Mariano, que salvara o grupo do envenenamento na Fazenda Ipueiras/CE e, por
último, Mergulhão.
Membro das seguintes Entidades:
– União Brasileira dos Escritores – UBE, onde
coordena o Sarau Literário Quartas às Quatro (14 anos).
– Centro de Estudos da Historia Municipal da CONDEPE/FIDEM,
Recife - PE.
– Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço
– SBEC, Mossoró - RG.
– União Nacional de Estudos Históricos e
Sociais - UNEHS, São Paulo – SP.
– Conselheiro do Cariri Cangaço. Grupo de
estudos da temática Cangaço, que acontece no Sul do Estado do Ceará.
Acadêmico da:
– Academia de Artes e Letras de Gravatá,
ocupante da Cadeira nº 09.
– Academia de Artes e Letras do Nordeste,
ocupante da Cadeira nº 29.
– Academia Recifense de Letras, ocupante da
Cadeira nº 02.
– Academia de Letras do Brasil, ocupante da
Cadeira nº 29.
– Sócio-correspondente da Academia
Serratalhadense de Letras (Serra Talhada - PE).
P.S.: Para
conhecer o autor e sua obra, visitem o site: www.geraldoferraz.net.br
BIBLIOGRAFIA: Pernambuco no tempo do Cangaço (Antônio Silvino – Sinhô Pereira – Virgulino Ferreira “Lampião”). Um
Bravo Militar. A vida e a época do Tenente-Coronel Theophanes Ferraz Torres.
1894-1933. Volume II.
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Jornal
de Petrolina “O Pharol”. Anúncio, na primeira página, da chegada de Eurico de
Souza Leão e da sua comitiva.
|
Por: Geraldo Ferraz de Sá
Torres Filho.



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