Dr. Joaquim Varela Moreira, nasceu em Cabo Verde (África).
Chegou ao Brasil aos 19 anos de idade. Cursou Medicina na Universidade Federal
de Pernambuco (UFPE) e hoje é cirurgião vascular e geral. Tem também
especialidade em Gestão Hospitalar e atua em ultrassom vascular. Está na
medicina há 20 anos e, atualmente, se dedica mais à cirurgia vascular. Atende
no Hospital da Restauração (Recife) e em cidades do interior a exemplo de
Surubim, Carpina, Limoeiro, Vertentes e Ribeirão.
Confira a entrevista:
BMM - O que apontaria como grande avanço na cirurgia vascular?
Dr. Varela - A incorporação da tecnologia, associada à
cirurgia vascular e o conhecimento da cirurgia vascular como um todo, tem tido
avanço. A hemodinâmica, que tem sido uma mais valia dentro da especialidade, a
troca de conhecimento cada vez mais intensificada, assim como o nível de
informação está aprimorado. Mas o que mais avançou na cirurgia vascular foi a
hemodinâmica que tornou muitos procedimentos mais viáveis e com menos
comorbidade.
BMM - Em quais casos se faz necessária a cirurgia de varizes?
Dr. Varela – Varizes são doenças multifatoriais e têm
consequências social, pessoal e profissional. Então as pessoas que não têm
contra-indicação e que têm varizes, sejam micro-varizes (vazinhos) ou mais
calibrosas (maiores) dispõem de métodos existentes hoje que passam, por
exemplo, pela aplicação com esclerotepia. Esse procedimento só pode ser feito
pelo cirurgião vascular que é quem tem treinamento para fazer isso. Existe
também o método de espuma que tem substituído, em parte, a cirurgia e com bons
resultados, e a cirurgia convencional que sempre fizemos. Tendo varizes a única
contra-indicação é se houver algum fator orgânico que impeça. Exemplo: um
paciente idoso com doenças associadas, ou se vive acamado. Esse não pode
retirar as varizes, mas o paciente que não tem comorbidades que impeçam, o
melhor tratamento fora os cuidados básicos, que é o uso de meias elásticas e de
medicação quando necessário, exercício físico; a retirada é o tratamento que
propomos. Não definitivo porque não há cura para varizes, mas conseguimos
evitar complicações futuras que venham de varizes, a exemplo de trombose,
úlceras varicosas. São doenças que vão surgindo devido o maior cuidado das
varizes.
BMM - Quais cuidados devemos ter em relação as varizes?
Dr. Varela - Esses cuidados que eu já citei, pois trata-se
de uma doença genética. A pessoa tem a tendência, tem fatores também como peso,
tipo de atividade, se é mulher. Tudo isso influi, mas os cuidados são
necessários. Existe também o caso de trombose venosa, que é o entupimento
varizes. São fatores de risco. Então as pessoas que têm varizes, têm maior
risco de ter trombose. Mas existe também a trombose arterial. Logo, o que
acontece no caso de trombose venosa, a complicação mais temida, é a embolia
pulmonar que é quando o coágulo do sangue migra pro pulmão e em casos mais
graves acarreta morte súbita. E temos uma taxa de mortalidade no Brasil e no
mundo por embolia pulmonar muito alta. E varizes é uma das causas de trombose.
Tem ainda aquela questão de trombose arterial, mas também a que é no caso de um
coágulo mais agudo que nos casos de extremidade pode resultar na perda de um
membro. É quando o vascular precisa agir com certeza rapidez para evitar isso.
E existem casos de complicações que são graves e chega a amputação por trombose
arterial ou venosa.
BMM - Fale sobre dilatação da veias...
Dr. Varela - A tendência genética que as pessoas têm e os
tipos de atividade, faz com que aconteça uma doença vascular nas veias e essa
doença proporcionam a dilatação desses vasos (varizes).
BMM - Em média atende quantos pacientes por mês?
Dr. Varela - Eu tenho uma média de atendimento em torno de 500 pacientes por mês.
BMM - Quais os desafios da sua profissão?
Dr. Varela - O maior desafio que temos hoje é o nosso sistema
de saúde. O sistema como um todo precisa ter um olhar mais sensível dos nossos
governantes, ter mais investimento. A saúde não se limita ao atendimento. Vai
desde a atenção básica até infraestrutura, saneamento básico, educação da
população. Temos um sistema ineficaz, insuficiente, falido. Com investimento
teremos melhor qualidade e poderemos atingir toda a população.
BMM - O senhor é um profissional compromissado não só em Surubim, mas em Pernambuco. A crise financeira afetou seu trabalho?
Dr. Varela - Afetou como um todo. A gente vê que a questão financeira do país tem afetado a partir do momento em que o indivíduo não tem o básico para sobreviver. A saúde também deteriora. Então a gente vê que a questão econômica afeta todos que dependem de uma economia forte, confiável e saudável para que possa ter uma vida adequada.
BMM - Como é seu trabalho nas cidades do interior?
Dr. Varela - Realizamos no interior procedimentos de médio e pequeno porte. Temos ajudado essa região. Quando temos um caso para cirurgia de grande porte, transferimos para Recife. Boa parte deles para o Hospital da Restauração, que é referência em cirurgia vascular em Pernambuco. Dentro da cirurgia vascular temos um caso preocupante que é a isquemia das extremidades. Ou seja, quando o sangue não coagula por alguma razão; exemplo: tabagismo, diabetes, fatores genéticos. Alguma alteração que predispõe a essas lesões vasculares, ocasiona a oclusão arterial e determina a isquemia da extremidade que é o caso que a gente mais encaminha para tentativa de revascularização dos membros. Mas nós temos casos de dilatações dos vasos que em casos patológicos às vezes determinam a fatalidade, quando não há intervenção em tempo adequado. Nós temos as patologias mais comuns, que são as varizes, que resolvemos. Apenas a demanda alguns casos às vezes transferimos para outros hospitais na área de cirurgia geral. Temos o hospital daqui que dá um suporte muito grande. E então temos atuado com foco nas pessoas carentes da região e com resultados satisfatórios. Me sinto muito honrado e muito feliz por estar fazendo parte da história dessa região e poder ajudar as pessoas que realmente precisam de profissionais compromissados com a saúde da população de um modo geral. É uma satisfação imensa poder estar aqui sempre com essa população que me acolheu com muito carinho. E eu tenho me dedicado para que possamos chegar onde estamos chegando hoje. No começo é uma aventura, é muito mais difícil, pelo fato de chegar aqui sem saber o que me esperava. Hoje a gente pode ver foi uma escolha muito acertada. Isso porque sei da contribuição que venho dando para essa região toda. Então eu digo que foi uma escolha divina que vem dando certo. Hoje eu me sinto como qualquer nativo, como todos que são daqui, que nasceram aqui. Hoje nós andamos de braços dados, fazendo o melhor, defendendo os interesses da população e cuidando das pessoas, que é a virtude maior de um profissional da área de saúde.
BMM - O que o Sr. fez para ser referência pernambucana na
medicina?
Dr. Varela – Trabalhar com amor às pessoas e me colocar no lugar de cada cidadão, ter o compromisso com as pessoas, fazer com o coração. Me doar da melhor forma possível para ajudar aqueles que precisam.
BMM - Deixe suas considerações finais...
Dr. Varela - Estamos em uma sociedade em que estamos
passando por muitos problemas. Temos essa pandemia que vem afetando todos,
inclusive os profissionais de saúde, aqui e no mundo todo. Atreladas a isso
temos as brigas políticas cotidianamente e muitas vezes atrapalham mais do que
ajudam. Mas o Brasil está caminhando no rumo a dar um passo certo. A gente ver
as dificuldades, mas vemos, por exemplo, que a atenção do povo, da sociedade
como um todo tem sido no sentido de solidariedade com o sofrimento de cada um.
Eu creio, tudo indica, que Deus está do lado de todos nós brasileiros e que em
breve sairemos dessa situação que estamos, e talvez muito mais fortalecidos.
Acredito que as pessoas vão poder sentir mais o valor do ser humano e a
solidariedade da população como um todo e acho que o nossos governantes devem
aprender muito. Que o Brasil está pagando um preço muito alto das desigualdades
e temos que trabalhar para haver mais justiça social e para que possamos
atingir muito mais, e com muito mais eficácia, as pessoas que mais precisam. E
o Brasil ainda precisa de muita coisa.
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