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| Mário Carabajal. |
Há momentos em que a vida, cansada de falar baixo, sussurra ao nosso espírito uma linguagem que não pertence a este mundo. É quando percebemos que cada encontro humano, até aquele que dura apenas o piscar de um olho, guarda uma senha antiga, uma pequena fagulha que parecia adormecida e que, subitamente, ilumina um caminho que sequer sabíamos ser nosso.
Nesse nível, mais profundo que o pensamento e mais silencioso que a fé, a existência se revela como um grande templo invisível. Cada ser é uma coluna vibrante, sustentando e sendo sustentado por uma arquitetura que não se vê, mas que tudo une. Não caminhamos somente sobre o chão; caminhamos sobre vibrações, sobre sinais que se cruzam, sobre pontes feitas de destinos que se reconheceram antes mesmo de nossos olhos se encontrarem.
O tempo, severo mestre e guardião das provas, não é inimigo; é o alquimista que dobra a alma até fazê-la brilhar. Faz cair o que é ilusório, empurra-nos aos limites, leva-nos às bordas do abismo para revelar que o que nos sustenta não são certezas, mas a fidelidade silenciosa do Mistério. É ali, no precipício entre o finito e o eterno, que a senha inter-humanos opera seu milagre: alguém aparece, às vezes desconhecido, às vezes inesperado, e diz a palavra exata que destranca um portal dentro de nós.
Há quem chame isso de destino, há quem chame de Providência; mas há também quem perceba que são correntes de consciência, fios luminosos que atravessam o Universo e nos conectam uns aos outros, como se fôssemos fragmentos de um mesmo canto primordial. Somos, talvez, peregrinos de uma mesma chama originária, reencontrando-nos ao longo da eternidade, oferecendo uns aos outros as senhas que decifram o labirinto da alma.
E assim seguimos: crianças presas às molduras do mundo, que um dia se tornam guardiãs de fronteiras invisíveis; seres que caminham sobre nuvens e incertezas, mas que ainda assim avançam; viajantes cansados que, no instante certo, recebem um gesto, uma frase, um olhar e compreendem que a vida, embora dura, é profundamente compassiva com aqueles que escutam o sagrado no ordinário.
“A realidade é severa, sim. A vida não pede desculpas, o tempo não afrouxa. Mas, por trás da dor e das provas, existe um movimento maior: um chamado, uma música, uma senha” (Bel. Dinalva Carabajal)
E cada senha inter-humana acende em nós a lembrança de que o Universo é mais vasto do que a razão pode medir, mais terno do que a dor pode ocultar, mais belo do que qualquer esperança isolada conseguiria imaginar.
Porque a verdade última é esta: nenhum de nós caminha sozinho. O invisível nos acompanha, nos prepara, nos empurra e nos resgata. E a vida, que por vezes nos derruba, também nos reconduz ao centro do que somos, criaturas do eterno, buscando no efêmero os traços daquilo que nunca morre.

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