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| Arlinda Lamêgo. |
Meu filho, aos dois anos, olhava os carros que passavam na rua movimentada na janela da sala. Tanto que a primeira palavra foi “carro”. Aprendeu com isso as cores e os tipos de carros daquela época. Também contava quantos passavam. Quantos verdes, azuis e verdes. Quantos eram Fuscas, Gol, Chevette, Escort. Sabia todos.
Morávamos em um pequeno apartamento e o playground era lá em cima, sem muita coisa. Não era como os apartamentos de hoje. Tinha uma pequena piscina, um brinquedo infantil que dava mais perigo que lazer. Comprava caminhões de plástico e ganhava alguns. Era o que gostava. Recebia da avó, que morava em Manaus , época de zona franca, muitos brinquedos com pilhas e brincava, mas se desinteressava logo.
Assim , ele olhava os carros da janela e brincava com caminhões de plástico. Podia estragar à vontade. Todos muito coloridos, de cores vibrantes : amarelo, vermelho, verde bandeira, azul real.
Ia fazer seu terceiro aniversário e pediu um caminhão de bolo. Ou seria um bolo de caminhão? Ainda tinha dificuldade para falar. Por fim, entendi. Tinha que fazer um bolo em formato de caminhão. Na época, tive muita dificuldade em fazer. Meus bolos eram fofos, desabavam ao fazer os recortes. Não havia pasta americana, como hoje .
Minha funcionária não acertava fazer um bolo. Todos ficavam duros como pedra. Ficava solado, não crescia, ficava pesado, denso e embatumado por dentro, compacto. Verdadeiras tabicas, rígidos e duros. Os meus, como já disse, eram muito fofos e não daria sustentação. Mandei que fizesse alguns, fiquei feliz: todos ficaram duros e solados.
Preferi fazer um caminhão com caçamba. Para dar cor, fiz bolos com anilina. Cada bolo tinha uma cor. Era um bolo para cada parte do caminhão.
A caçamba foi vermelha. A cabine foi verde, onde ficava o motorista. Recortei com uma faquinha de ponta as peças: as rodas grandes, quase gigantes, cabine, carroceria. Tudo de bolo duro. Pensei comigo: ninguém vai comer isso. Na caçamba, coloquei brigadeiros, como se fossem pedras. Ainda assim, tinha que ter bolo.
E agora? Perguntava-me. Beco sem saída. Consegui fazer a cabine com pão de ló. Tinha que ter janelas, motorista. Busquei ideias na minha Enciclopédia de A a Z. Não encontrei. Desenhei e deu certo. Coloquei um boneco como motorista. Daqueles de plástico, que encontrei na feira. Fiz com as mãos a roupinha dele e o chapéu. Meu filho acompanhava tudo. Tinha hora que não gostava. Gaguejava e chorava. Eu tinha que refazer. Era mais um bolo. Como foi possível? Não sei. Nos dias de hoje, há explicações no google e verdadeiras artistas em pasta americana. Mãe sofre.

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