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| Foto: Reprodução/Internet. |
“Aqui tem muitos pais evangélicos, cristãos, católicos que
não gostam. A gente deu uma aula sobre budismo e gerou a maior polêmica. A
gente não passa religião nenhuma, quem passa isso são os pais. Mas eu falei bem
direitinho, ela só faltou me engolir”, argumenta. Na escola, segundo a
coordenadora, não há referências religiosas, somente um “cultinho”. “É só
música para brincar, relaxar, e rezar o Pai-nosso”.
Adriana Moura também afirmou que a instituição respeita a
obrigatoriedade do ensino da história e da cultura africanas e afrobrasileiras,
mas entende que a legislação se refere ao conteúdo repassado em sala de aula.
“A gente trabalha a questão da escravatura, a gente trabalha o índio, trabalha
tudo”, garante. “A lei é cumprida em sala de aula. A dança é opcional, a gente
coloca o quiser, até balé. Ela insistiu com a lei, não entendi. Ela foi muito
grossa. Não entendo porque ela está fazendo tanto estardalhaço”.
A porta-voz da escola disse que a professora seria
contratada para dar aula de frevo. Questionada se, antes de ser contratada,
Gabriela foi avisada de que a aula seria de frevo, Adriana Moura respondeu que
não saberia responder, pois não foi ela quem fez a entrevista. Ela também
rebate a acusação de racismo institucional, pois a escola tem no quadro
professores de diversas religiões e orientação sexual. “O que é racismo institucional?
Aqui tem um monte de gente afrodescendente, eu sou afrodescendente”, questiona.
A professora de dança Gabriela Sampaio, 27 anos, estava
animada com o início de um novo projeto: ela tinha sido contratada por uma
escola particular do Recife (PE) para trabalhar com alunos do ensino
fundamental. Mas ela não passou da aula experimental.
"Falei quem eu era, dei ênfase nas danças populares
afro contemporâneas, com as quais eu trabalho desde os meus 16 anoS. Falei do
grupo Bacnaré, próximo à escola, alguns alunos disseram que conheciam. Enfim.
No final de tudo, a coordenadora-geral disse: 'dança afro aqui não, a gente não
admite'. Perguntei o motivo, ela disse que tem alunos evangélicos e os pais não
aceitam”, narra Gabriela.
Segundo a professora,
a direção do Colégio Modelo deu determinação no dia 3 de agosto. Para
Gabriela Sampaio, proibir o ensino da dança trata-se de um caso de racismo
institucional e desrespeito à Lei Federal 10.639/03, que obriga o ensino da
história e da cultura afrobrasileiras e africanas em estabelecimentos de ensino
públicos e particulares de todo o país.
A professore conta que, apesar de ser adepta do candomblé, a
atividade não se relacionava a religião. “O frevo, por exemplo, é popular e é
afro também”, exemplifica. Mesmo assim, segundo ela, a coordenadora do colégio
manteve a decisão, e afirmou que a legislação só valia para assuntos tratados
dentro de sala de aula, e não em atividades extracurriculares.
De acordo com Gabriela, durante o processo de seleção ficou
claro que sua especialidade era a dança afro. Para ela, a cultura
afrobrasileira precisa ser tratada de forma transversal pelas instituições – o
que incluiria atividades como a dança. “Quando ela diz que proíb,e ela nega uma
cultura, uma história. Estão negando conhecimento aos alunos. Será que
realmente essa instituição está apta a trabalhar a questão racial na escola?”,
questiona. A professora não foi efetivada na instituição e relatou o episódio
em uma rede social.
Escola
Procurada pela reportagem, a coordenadora-geral do colégio,
Adriana Moura, confirmou que a questão religiosa é um dos motivos para que aula
não seja ministrada. Segundo a coordenadora, a professora não fo efetivada no
cargo pela forma como discordou do impedimento em dar as aulas de dança afro.
Desconhecimento
O caso levanta dois debates, segundo especialistas ouvidos
pela Agência Brasil: o racismo institucional e a interpretação sobre a lei
federal.
A promotora do Ministério Público de Pernambuco (MPPE) Maria
Bernadete Figueiroa está a frente do Grupo de Trabalho (GT) de Combate ao
Racismo do órgão há 13 anos. Desde 2013, também coordena um espaço semelhante
no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Para a promotora, o caso da
professora pode se enquadrado como racismo institucional.
“Racismo institucional é uma prática habitual das
instituições de excluir o acesso das pessoas negras, dificultar o acesso a
direitos, que todas as instituições estão impregnadas disso independente de
estar conscientes disso”, diz. Questionada sobre a quantidade de casos
registrados pelo Ministério Público, Maria Figueiroa “não é mensurável, quantas
denúncias, não é o caso. É uma atitude institucional que manifesta práticas
racistas. Por exemplo: a polícia aborda pessoas negras e pessoas não negras. A
abordagem de pessoas negras de forma violenta é uma forma de racismo
institucional”.
O racismo institucional, segundo a promotora, é diferente do
crime de racismo, injúria racial e discriminação racial, tipificados na
legislação brasileira. Pode ser que ocorram as duas coisas, mas esse conceito é
um aspecto cultural e histórico da sociedade brasileira que se manifesta
cotidianamente, conforme Maria Bernadete.
Mesmo sem tipificação penal, ela afirma que é preciso
denunciar os casos ao Ministério Público.
“Acho muito positiva a atitude da professora porque são
essas situações que não podem ficar se repetindo ao longo dos séculos. Essas
denúncias têm que ser levadas ao Ministério Públcio, que tem como chamar essas
instituições, ajustar a conduta, abrir um procedimento, independente do crime”,
defende. Além da lei citada pela professora de dança, a promotora também lembra
o que o Estatuto da Igualdade Racial (Lei 12.288/10) prevê a "eliminação
de obstáculos históricos socioculturais e instituicionais que impedem a
representação da diversidade étnica nas esferas público e privada”.
Para a professora decana da Universidade de São Paulo (USP)
e atual coordenadora da pós-graduação em Educação da Universidade Metodista,
Roseli Fischmann, o caso expõe o desconhecimento de instituições de ensino
sobre a diferença entre expressão corporal e religião; compreender a dança como
ferramenta de conhecimento; e também do ponto de vista didático-pedagógico, de
como trabalhar de forma eficiente a história e a cultura africanas e
afrobrasileiras.
“No campo da escola, esse racismo é muito perverso e com
efeitos muito extensos. Isso vai impedir o trabalho dessa professora, que os
colegas docentes possam conviver com essa possiblidade de uma colega que
trabalha um tema importante na escola, obrigatório por lei, no campo da arte.
Existe uma visão transversal muito enriquecedora, que é de fato o que existe
hoje de mais avançado em termo de abordagem científica. E vai impedir os seus
alunos, também, de conhecer o que é. Essa obstacularização é um racismo
institucional sem dúvida alguma”, classifica.
Fischmann, que é responsável pelo capítulo sobre pluralidade
cultural dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), também afirma que a
escola citada está, de fato, desrespeitando a lei. A pluralidade cultural é um
tema considerado transversal, e por isso precisa romper os limites dos livros e
da sala de aula. “É preciso tratar em todas as instâncias e é muito importante
que isso seja respeitado”, ressalta.
A professora, que trabalhou como especialista da Organização
das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) para a
Coalizão de Cidades contra o Racismo e a Discriminação, avalia que a limitação
do ensino de questões afrobrasileiras aos discursos tradicionais dos livros
didáticos reflete a falta de visibilidade da importância da população negra na
formação da indentidade nacional.
“Isso fala de uma inconsequência que a sociedade brasileira
sempre teve com um grupo populacional que sempre contribuiu com tudo da nossa
sociedade. Essa questão da dança, de tudo que é da cultura, está na nossa vida.
Ninguém poderia comer arroz e feijão, foram os africanos que trouxeram. E
quando se come ninguém fica pensando se é impuro em termos religiosos”, rebate.
“A influência está presente no nosso modo de ser. Então
quando você coloca isso em uma dança, no canto, num teatro, você traz a
consciência nas crianças e adolescentes para que eles possam perceber as nossas
origens”.
Por: Agência Brasil.

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