Presidente participará nos dias 4 e 5 de setembro do
encontro do G20 - grupo que reúne as maiores economias do mundo; chineses
tinham boa relação com gestão petista e estão de olho em relações de novo
governo com EUA.
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Michel Temer é empossado presidente da República em
cerimônia realizada no Congresso Nacional, em Brasília, nesta quarta-feira (31)
(Foto: Ueslei Marcelino/Reuters)
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Em meio a certa cautela internacional quanto ao processo de
impeachment que derrubou o governo de Dilma Rousseff, o presidente Michel
Temer, agora confirmado definitivamente no cargo, embarcou para a China, onde
participará nos dias 4 e 5 de setembro do encontro do G20 – grupo das maiores
economias do mundo.
É fácil entender sua pressa nos últimos dias para encerrar o
julgamento. De um lado, a ocasião dá a Temer um palco de destaque para sua
estreia internacional, já que estarão presentes no encontro os líderes mais
importantes do mundo, como o presidente americano, Barack Obama, e a nova
primeira-ministra britânica, Theresa May.
De outro, lhe garantirá uma recepção amigável do país
anfitrião, já que a China, pragmática nas suas relações externas, está mais
interessada em construir um bom relacionamento com o novo governo brasileiro do
que em se preocupar com a legitimidade ou não do processo que lhe alçou ao
poder.
Sob o comando do Partido Comunista desde 1949, o governo
chinês não costuma interferir em questões de política interna de outros países.
Mesmo antes de concluído o julgamento de Dilma, já estava cofirmado um encontro
entre Temer e o presidente Xi Jinping, para 17h desta sexta-feira, em Hangzhou,
cidade próxima a Xangai onde ocorrerá o G20.
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Premiê britânica Theresa May, participará de encontro do G20
(Foto: Tobias Schwarz / AFP)
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Apreensão chinesa
Não que o processo de impeachment tenha sido visto com
tranquilidade pelo governo chinês, acredita Evandro Menezes de Carvalho,
professor de direito internacional da Fundação Getúlio Vargas, que visita com
frequência o país.
Pelo contrário, a mudança causou apreensão, já que Pequim
tinha construído uma boa relação com Brasília durante os governos petistas,
inclusive com a criação dos Brics - grupo de grandes nações emergentes que
reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul - e o fortalecimento do G20,
ainda no governo Lula.
No entanto, consumada a troca de governo no Brasil, o foco
agora é reconstruir a boa relação, observa Carvalho. Ele, que já atuou como
professor visitante na Fudan University, em Xangai, conta que tem sido
constantemente questionado pelos chineses sobre o novo governo.
"Estive lá em agosto e era muito evidente por parte da
academia e algumas pessoas de governo a curiosidade em saber qual vai ser o
direcionamento da política externa de um eventual governo Temer", disse à
BBC Brasil, pouco antes de o Senado concluir o julgamento de Dilma.
"Eles estão preocupados em entender como se relacionar
[com a nova administração]. Então essa é uma pergunta que me faziam muito: o
Temer vem ou não vem? Vem com quem? Como são as pessoas? Do que eles gostam?
Como a gente trata? Há uma preocupação de estabelecer um canal de diálogo, uma
boa relação imediata, sem deixar que questões políticas-ideológicas interfiram
na estratégia de relacionamento", acrescentou.
Comitiva
Acompanham Temer na viagem o presidente do Senado, Renan
Calheiros, e os ministros José Serra (Relações Exteriores), Henrique Meirelles
(Fazenda), Blairo Maggi (Agricultura) e Maurício Quintella (Transportes).
Carvalho observa que a troca de governo através do
impeachment acabou afetando as conversas nos últimos meses. Inclusive o Brasil
teria sido pouco atuante nas reuniões preparatórias para o G20, já que ficou
algumas semanas sem embaixador, devido à substituição de Roberto Jaguaribe por
Marcos Caramuru.
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Dilma Rousseff deixou o poder após decisão do Senado (Foto:
Dida Sampaio/Estadão Conteúdo)
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"A mudança de governo, tal como está se dando,
preocupou o governo chinês e de certo forma impactou nas relações. Eles já
estavam acostumados, já tinham estabelecido a base de uma relação que perdurou
quase 14 anos com governos do PT, onde teve de fato uma série de iniciativas,
sobretudo nos anos Lula", nota o professor.
Foi, por exemplo, já no segundo ano da administração
petista, 2004, que houve a criação da Cosban (Comissão Sino-Brasileira de Alto
Nível de Concertação e Cooperação), o que elevou a relação entre os dois países
ao status de "parceria estratégica global".
Carvalho nota que a China considera importante a relação com
outros países emergentes e que não trata essas nações da mesma forma que as
potências europeias e os Estados Unidos.
O governo chinês, inclusive, valoriza muito o G20 (em
contraponto ao mais restrito G7) e fez pesados investimentos de infraestrutura
para a realização da cúpula em Hangzhou. Com objetivo de reduzir a poluição e o
trânsito, mandou fechar fábricas próximas da cidade e decretou feriado durante
o evento.
"Existe uma questão geopolítica, uma apreensão chinesa,
para entender bem como vai ser esse novo governo brasileiro na relação com os
Estados Unidos. E se isso vai ou não afetar os interesses chineses", observa
o professor.
"É uma questão que parece estar subentendida nas
perguntas que me fizeram bastante: se os negócios chineses vão ser prejudicados
em função do que supostamente eles atribuem a uma proximidade maior do perfil
do governo Temer com os Estados Unidos", ressaltou.
Durante o G20, também estão previstos encontros bilaterais
de Temer com os governantes de Itália e Espanha no dia 5. Reuniões com Árabia
Saudita e Japão ainda estão sendo negociadas.
O presidente também se reunirá no dia 3 com o diretor-geral
da Organização Mundial do Comércio, o brasileiro Roberto Azevêdo, que foi
eleito para o cargo com apoio do governo Dilma.
'Maior parceiro'
A China desde 2009 é o maior parceiro comercial do Brasil,
comprando principalmente matérias-primas, como soja e minério de ferro, e nos
vendendo produtos industrializados.
Dessa forma, o foco da conversa de quarenta minutos entre
Temer e o Xi Jinping será a economia. O presidente brasileiro deve priorizar
três temas:
1. Fechar a venda de 18 aeronaves da Embraer para a China,
além de acertar a promessa de compra de mais 20;
2. Solicitar que o governo chinês habilite mais frigoríficos
brasileiros a vender carne (bovina, suína e de frango) para o país, já que
restrições sanitárias hoje limitam esse número;
3. Pedir maior agilidade para que a China autorize a
importação de soja do Brasil com novas sementes trangênicas - hoje esse
processo está demorando até três anos, segundo fontes no Itamaraty, trazendo
empecilhos para o aumento da produtividade da agricultura brasileira. Por falta
de infraestrutura, na hora de estocar e transportar a soja, o Brasil separa
apenas em dois grupos - transgênico e não transgênico, sem fazer distinção
entre os diferentes tipos de sementes modificadas (o que os EUA conseguem
fazer). Com isso, enquanto a China não autoriza novas sementes, todos os
produtores do Brasil preferem deixar de usá-las.
Temer deve falar ao presidente chinês sobre as reformas que
pretende implementar no país para promover o ajuste fiscal, assim como
apresentar oportunidades de investimento dentro do plano de concessões que está
sendo elaborado para a área de infraestrutura.
Há expectativa de que Xi Jinping convide Temer para retornar
ainda este ano à China para uma visita de Estado. Nesse tipo de encontro,
diferentemente da reunião durante o G20, o presidente iria com uma grande
comitiva de ministros e empresários para uma série de encontro entre as
autoridades dos dois países.
Da parte da China, há grande interesse em construir uma
ferrovia transoceânica ligando o Atlântico e o Pacífico, através do Brasil e do
Peru, para baratear seu comércio com a América Latina.
Gigantesco, o projeto ainda está longe de sair do papel.
Devido à diferença de bitolas dos trilhos de Brasil e Peru, exigiria a
construção de um enorme centro de conexão no meio da floresta amazônica, com
relevante impacto ambiental.
Por: G1.



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