Apenas no TCU, sete procedimentos apuram irregularidades no empreendimento. Penalidades preveem multas e podem resultar na abertura de processo de caducidade do contrato com a concessionária.
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Com orçamento inicial de R$ 4,5 bilhões, obra da
Transnordestina tem valor atual de R$ 11,2 bilhões, segundo concessionária (Foto:
Wagner Sarmento/TV Globo)
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Atrasos recorrentes, revisões de projeto, orçamento inicial
quase triplicado, problemas com empreiteiras, denúncias de prejuízos sociais e
ambientais. Em uma década de obras e após mais um prazo descumprido, a ferrovia
Transnordestina coleciona processos, investigações e auditorias em diversas
frentes. Somente no Tribunal de Contas da União (TCU), são sete procedimentos
que apuram irregularidades no empreendimento. Um dos documentos cita “vícios
gravíssimos” no contrato da obra.
(O G1 publica uma série de cinco reportagens sobre as obras
de ferrovia Transnordestina, que corta os estados de Pernambuco, Ceará e Piauí.
A primeira mostra que, iniciadas em 2006, as obras ainda não foram concluídas e
seguem sem prazo. A segunda traz o retrato das famílias desapropriadas. Já a
terceira mostra os prejuízos causados a fábricas de gesso em Pernambuco devido
à demora da instalação da ferrovia, enquanto o quarto texto mostra como as
denúncias de uma comunidade quilombola sobre irregularidades na construção
fizeram a Justiça Federal suspender a obra.)
As penalidades preveem multas e podem resultar até na
abertura de um processo de caducidade do contrato com a concessionária, a
Transnordestina Logística, consórcio formado pela Companhia Siderúrgica
Nacional (CSN) e pela Taquari Participações.
O TCU diz que a obra, lançada em 2006, custava inicialmente
R$ 4,5 bilhões e passou para R$ 7,5 bilhões em 2012. A Agência Nacional de
Transportes Terrestres (ANTT) ainda não aprovou o orçamento da obra, mas R$ 6
bilhões já foram investidos, e a Transnordestina Logística diz que o valor
atual da construção é de R$ 11,2 bilhões. O prazo mais recente para o término
do empreendimento era 22 de janeiro deste ano. Uma vez mais, o cronograma não
foi cumprido.
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Descompasso entre execução física e financeira da ferrovia
foi pontuado pelo Ministério Público de Contas (Foto: Eduardo Riecken/TV Globo)
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No ano passado, o repasse dos recursos chegou a ser
bloqueado por ordem do ministro relator Walton Alencar Rodrigues. Em decisão
posterior, ele revogou a medida. A representação do Ministério Público de
Contas na ocasião citava “indícios de irregularidades graves cometidas pela
ANTT na celebração de atos e contratos visando à construção e à exploração da
Transnordestina”.
O documento afirmava que acordos foram firmados “sem prévia
licitação” e pontuava “diversas irregularidades na execução da construção e no
valor real dos investimentos, bem como descompasso entre a execução física e a
financeira”. O texto do MP de Contas era categórico ao frisar que “recursos
públicos estariam sendo empregados de forma indevida”.
O relatório falava ainda de “vícios construtivos” na obra,
como baixa qualidade dos trilhos e trincas na plataforma de aterros. Em seu
voto, no entanto, o relator ponderou que “o atraso na execução física da obra
em relação ao cronograma decorria da não integralização de recursos que
deveriam ter sidos aportados pelas entidades públicas”.
A Transnordestina também é alvo de ação civil pública no
Ministério Público Federal no Piauí, por violar direitos de uma comunidade
quilombola. No processo, até mesmo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e
dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), órgão com o poder de polícia
ambiental federal e responsável pelo monitoramento e controle do meio ambiente,
figura como réu por descumprir um Termo de Compromisso Ambiental firmado com a
concessionária. No entendimento do MPF, a ferrovia “não deveria” passar por um
povoado quilombola.
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Em um dos trechos da obra, um quarto de quase 3 mil hectares
de mata foi suprimido para terraplenagem e colocação de trilhos (Foto: Eduardo
Riecken/TV Globo)
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O Ibama observa que, no trecho citado, a Transnordestina
possui as licenças ambientais necessárias. Somente no trecho entre Trindade
(PE), próximo à divisa com o Piauí, e o porto seco de Eliseu Martins, o
instituto autorizou a remoção de quase 3 mil hectares de mata para
terraplenagem e colocação de trilhos. Um quarto do total já foi suprimido.
“Os empreendedores que solicitam licenciamento ambiental ao
Ibama são responsáveis pela Compensação Ambiental, que é calculada de acordo
com o valor financeiro da construção do empreendimento. Outra contrapartida
ambiental é a realização de um Plantio Compensatório para mitigar os impactos
resultantes da supressão de vegetação”, ressalta o Ibama em comunicado.
O trecho entre Belém de Maria (PE) e o porto de Suape, no
litoral pernambucano, ainda não foi sequer terraplenado porque o projeto está
em revisão. “Houve necessidade de readequação do traçado inicialmente proposto
em função da construção de uma barragem de contenção de cheias”, explica, se
referindo à barragem de Serro Azul, que ainda não está pronta e deve atender 10
municípios.
A Agência Nacional de Transportes Terrestres, por sua vez,
funciona como órgão regulador. Recebe relatórios mensais da Transnordestina
Logística, monitora e fiscaliza a obra e envia equipes de acompanhamento para
avaliar a procedência das informações prestadas pela concessionária. É também
responsável por cobrar providências.
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Segundo a Transnordestina Logística, dos 1.753 km de extensão
da ferrovia, 600 km estão concluídos e outros 600 km em execução (Foto: Eduardo
Riecken/TV Globo)
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A ANTT enumera que, ao longo dos anos, verificou problemas
como “incompletudes nos projetos, necessidade de adequações e ausência de
orçamento suficientemente detalhado”. E reforça que há “regras quanto às
condições para execução do empreendimento”.
“Nesse sentido, diversos processos administrativos estão em
curso para apurar os vários descumprimentos contratuais por parte da
concessionária que poderão culminar em sanções como advertência, multa e,
eventualmente, na abertura de processo que poderá implicar a declaração de
caducidade da concessão”, alerta a agência, em nota oficial.
Respostas
O Ministério dos Transportes, responsável por coordenar a
execução da obra, atribuiu o atraso a “questões financeiras” e a “ajustes no
projeto da ferrovia”. A pasta disse ainda desconhecer irregularidades na
construção da Transnordestina e frisou que ela “continua sendo uma obra de
infraestrutura prioritária para o país”.
Já o Ministério da Integração Nacional anunciou, em janeiro
deste ano, mais R$ 430 milhões para a continuidade da obra. “Do total dos
recursos anunciados, R$ 300 milhões serão provenientes do Fundo de
Investimentos do Nordeste (Finor), dos quais R$ 152,7 milhões já foram
liberados por meio do Banco do Nordeste do Brasil”, afirma, em nota. A parcela
seguinte depende da comprovação dos serviços e do aporte de recursos próprios
por parte da Transnordestina Logística.
Em nota, a Transnordestina Logística informou que, dos 1.753
quilômetros de extensão da ferrovia, 600 km estão concluídos e outros 600 km em
execução, o que corresponde a 52% da obra – que está parada. A TLSA disse
também que conta com 829 trabalhadores mobilizados – no pico, chegou a ter 11
mil.
A concessionária justificou o aumento de quase três vezes no
orçamento inicial – de R$ 4,5 bilhões para os atuais R$ 11,2 bilhões. “O que se
previa era a construção de 770 km de ferrovia nova em bitola larga e a simples
remodelação de outros 1.250 km de ferrovia, com custo muito menor do que a
construção de uma ferrovia totalmente nova”, explica o comunicado,
acrescentando custos como licenciamento ambiental, engenharia própria,
supervisão e gerenciamento da obra, atualização monetária e outros gastos
indiretos. A TLSA também negou qualquer “descompasso” entre recursos aplicados
e execução da obra, “fato este já reconhecido pelo TCU quando da derrubada da
liminar que suspendia novos aportes no projeto”.
A Transnordestina Logística deu ainda novos prazos para
conclusão do empreendimento: 30 meses para o trecho entre Eliseu Martins (PI) e
o porto de Pecém (CE) e mais 14 meses para a ligação até o porto de Suape (PE),
o que deve arrastar a construção da ferrovia pelo menos até 2019, com previsão
de transportar, numa primeira etapa, 30 milhões de toneladas anuais de
produtos. A TLSA quer devolver o que chama de “parte não operacional da Malha
Nordeste”, que contempla Paraíba, Rio Grande do Norte e Alagoas, por
“inviabilidade econômica”.
Por: G1.




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