AMA GLÓRIA

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DRª Virginia Pignot.


O Filme

O primeiro longa-metragem individual de Marie Amachoukeli participou da abertura da Semana da Crítica no último festival de Cannes, sendo muito bem acolhido pela imprensa. As duas personagens principais, uma menina charmosa de seis anos, e sua baba do Cabo Verde que vivia em Paris, levam o publico do riso às lágrimas, contando a história da força e da delicadeza de uma relação de amor, com seu poder de grandeza, de superação, de regulação do mundo, mas também seu potencial efeito destruidor. A interrupção brutal da relação, por uma separação, por uma palavra que fere em um momento de fragilização, de sofrimento, pode levar o ser ao desastre. A tonalidade do filme é luminosa, com cenas gravadas no Cabo Verde, país de vento, de pesca, de sol, com a utilização de desenhos, que veem pontuar momentos de perigo, de angústia, e com uma atenção especial dada à filmagem do corpo, e mais especialmente do rosto.

A gramática cinematográfica

A escolha das atrizes principais se fez a partir de encontros e conversas com babás estrangeiras em Paris, e solicitação de pais de meninas entre cinco e seis anos de idade. A escolha das duas pareceu uma evidência assim que foram encontradas, modificando inclusive o roteiro. Com a escolha de Ilça Moreno Zeda, que contou sua história de vida, para o papel da babá Glória, a realizadora reescreveu o filme. O roteiro da viagem foi adaptado para o Cabo Verde, na região de origem de Ilça. Ela se interessou ao fato do reencontro com filhos que ela não pôde criar, para poder sustentá-los economicamente. Outro detalhe interessante é que a realizadora é muito míope, e ela utiliza assim outros sentidos ou sensações, a audição, o movimento, o toque para perceber e traduzir o mundo. Cléo, sua personagem infantil no filme é míope, mas a jovem atriz Louise Mauroy-Panzani vê muito bem. A utilização dos óculos era como o sinal lúdico, que permitia à menina de entrar na personagem de Cléo. O filme utiliza desenhos introduzindo cortes nas cenas de “vida real” do filme. Marie Amachoukeli procura exprimir assim o inconsciente da criança, que vive coisas que ela sente mas ainda não sabe dizer, ou coisas que ela imagina, que podem ser verdadeiras, ou não.

Palavras da realizadora

A cenarista e realizadora dedica o filme à Laurinda, porteira (concierge) e babá portuguesa que cuidou dela até os seus seis anos de idade. Uma forte relação de amor existe entre as duas, mas a separação foi vivida como uma devastação pela realizadora quando era criança. O filme foi uma maneira de interrogar, de tentar entender esta vivência precoce. Ela procurou dar ao filme a altura do olhar infantil.

Laurinda viera à Paris para trabalhar, e quando a situação do país e da família melhorou, ela voltou para viver em Portugal. Elas se reencontraram mais tarde, o amor forte persiste entre as duas. Ela se interessou também pelo vínculo que liga uma babá a uma criança. Há uma relação de contrato de trabalho, mediada pelo dinheiro, mas o amor pode surgir, o que geralmente não é evocado pela família empregadora, como se a baba fosse invisível para a família, como se não tivesse vida própria...Ela evoca a injustiça econômica e social, que faz mulheres abandonarem suas próprias crianças, para cuidarem das crianças dos outros, há milhares de quilômetros de distância…

Para concluir

Entre uma babá, mãe “órfã” de criar seus filhos por razão econômica, e uma criança tornada órfã pelo câncer da mãe, uma verdadeira história de amor materno pode se desenvolver. Ama Gloria trata com muita delicadeza, inteligência e respeito da força deste amor, e da oportunidade do aprendizado da separação, que não ocorre sem dor. Como diz uma música de Nilda Fernandez “Les yeux dans ton regard” (Os Olhos no teu olhar) no filme : “não importa o desafio, quero ser feliz”.

Por: DRª Virginia Pignot.



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