ACASO? OU DESTINO?

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Maria Teresa Freire.


Precisava fugir de mim mesma. Refugiar-me. Não onde há o sol fulgurante e o mar empolgante. Refugiar-me no tranquilo sobe e desce das montanhas, sob as sombras de árvores frondosas, ao lado de um riacho tranquilo com pássaros voando. Um cenário paradisíaco. Quase celestial. Existente? Sim, encontrei esse local. 

 Longe da cidade asfaltada, dos altíssimos prédios, da confusão do trânsito e da balburdia humana. Na bucólica vila de agricultores com somente um pequeno hotel, que mais parecia uma casa de família, encontrei um lugar confortável. Bem combinando com a paisagem bucólica. 

Uma visão verdejante por todos os lados. A natureza dá às cores matizes incríveis, que não se consegue reproduzir fielmente em fotos, nem em pinturas. No espaço que me envolve, observo os tons diferentes de verde e marrom, que encantam os apreciadores do ambiente natural e impressionam os que vivem no cinza das construções urbanas. Todos se apaixonam por tanta exuberância em que o ser humano não se intrometeu.

Depois de instalada, saio para uma caminhada exploratória pelas ruelas que abrigam moradias. Não são muitas. As ruazinhas, apesar de estreitas, se estendem até encontrar o campo. Sigo por esse caminho e as propriedades rurais aparecem, pequenas, grandes, todas com plantações que colorem o verde abrangente com outras tonalidades. Avermelhadas, amareladas, alaranjadas, alguns pontos pretos, outros rosados, até roxos se notam.

Quando me dou conta, percorri uma longa distância e a sede me assola, as pernas estão doloridas e a vontade de descansar me domina. Avisto uma casa à beira da estradinha e me surge rapidamente um pensamento: “pedirei água, um pouquinho que seja”. 

Um menino brincando em frente a casa me recebe, ouve meu pedido por água e grita: “pai, tem uma mulher pedindo água”!  Aparece um homem que vem saber quem é a pessoa por ali perdida. Eu esperava um agricultor, um homem mais simples, entretanto ante meus olhos um ‘tipo’ com jeito de ‘empresário em férias’ faz sua aparição. Por que me veio essa comparação com apenas um olhar? Bem, aquele jeito desembaraçado, confiante, sorridente, inclusive com vestimenta que não é de agricultor, ou seja, roupa mais surrada e um pouco suja de terra (perdoem-me os agricultores). Poderia dizer elegante para a ruralidade que nos circundava.

O simples pedido de água transformou-se em uma conversa. Inicialmente, sobre a natureza impressionante e depois sobre os dois. Porque eu e ele estávamos naquela cidadezinha. Ele, um engenheiro agrônomo, empregado em uma grande empresa da área do agronegócio, obrigado a cooperar no desenvolvimento de produtos químicos para proteger plantações das pragas, mas não a saúde das pessoas, largara esta posição para se dedicar à agricultura saudável. Ali estava ele, viúvo, com o filho, a cuidar de uma extensa plantação de hortaliças, sem utilizar agrotóxicos, vendendo na feira semanal que servia à região toda do entorno da pequena cidade.

Eu, uma escritora de relativo sucesso, acossada pela Editora que me publicava para produzir livros “em massa” como se eu fora uma “fábrica” de chocolate que lança novos produtos a toda hora para agradar e conquistar clientes e ganhar muito dinheiro. A Editora investia em mim, mas do jeito que ela determinava. Para escrever é preciso um pouco, ao menos, de sossego e de tempo, que os compromissos com o Marketing não me permitiam.

Dois fugitivos de atividades indesejáveis buscando na reclusão e na natureza a paz para uma sobrevivência mais equilibrada.

As minhas caminhadas diárias sempre terminavam naquela casa, onde eu ficava para almoçar, conversar e começar me apaixonar pelo homem diferente, que trabalhava na terra e cozinhava divinamente.  A ansiedade deixou-me, a tranquilidade envolveu-me e eu escrevi. Muito. Sobre o que via: a cidadezinha charmosa, os moradores simpáticos, as fazendolas produtivas. Histórias que surgiam na minha mente com a mesma facilidade com que eu saboreava as agradáveis refeições diárias, na companhia daquele engenheiro agrônomo inteligente, gentil, conversador e seu filhinho muito querido. E na convivência de todos os dias, que nós dois ansiávamos que chegasse a hora do almoço e do pós-almoço, o amor foi surgindo. Devagar, de mansinho, infiltrando-se em nós, fazendo parte da nossa respiração, como aquele ar puro que preenchia nossos pulmões. Bem assim, para ser sentido em todos os poros, apreciado por todos os sentidos e entesourado no recôndito do coração. E assim, dos dois lados, meu e dele.     

Com isso fui ficando. Apaziguei a exigente Editora, enviando meus textos para compor um livro, contando o período que estava vivendo naquele local aprazível e também especial para mim. Naquele recôndito bucólico, na casa que me abrigava diariamente, eu sentava para escrever, apreciando a paisagem, as plantações, as pessoas trabalhando a terra que sustentava a tantos. Eu escrevia sobre tudo aquilo que via, que sentia. As conversas em que participava inspiravam meus diálogos nos meus romances. Cada habitante se tornava um personagem nos meus livros. Os cenários naturais que me circundavam, eram descritos nos meus textos. O lugar integrou-se a mim, e os relatos saiam facilmente das teclas do computador.  

O plano de escrever um livro, acabou virando uma trilogia. E haveria muito mais para narrar, pois cada família era um “prato cheio” para uma história de muitas e muitas páginas. E todos cooperavam com as minhas entrevistas, contando-me com ricos detalhes as histórias entusiasmantes de suas vidas. Ao ver aquele lugar tranquilo reservado, com moradores sossegados e calmos, a impressão é que não há entusiasmo, excitações, situações instigantes ou paixões.  Ledo engano! Existe tudo isso, mas é preciso descobrir em cada pessoa, em cada família, em cada festa, em cada encontro clandestino, em cada namoro escondido. E foi assim que as ideias afloraram, as frases surgiam, os parágrafos se sucediam e o texto chegava ao fim com uma rapidez e facilidade, como nunca me havia acontecido.

E, ao ficar, aprisionei meu coração, naquela moradia que me recebia todo dia com portas abertas, cozinha quente e cheirosa e habitada por duas pessoas que sorriam ao me ver, abriam os braços e neles me aconchegavam com amorosidade. Como me sentir nesse ambiente? Extasiada, encantada?  Na verdade não. Sentia-me bem recebida, bem adaptada e refletindo até quando seria dessa forma.

Até que um dia eu ouvi: “Valéria, quero conversar com você um assunto, creio, de nosso interesse. Qual o motivo de você continuar aqui?  Assim direto, a pergunta me pegou de surpresa. Gaguejei e  Jorge nem me deu tempo para responder. “Quero saber sua verdadeira razão, pois para mim nosso relacionamento está bem sério e eu pretendo lhe fazer outra pergunta dependendo desta sua primeira resposta”.  Eu respondi: “Meu motivo é você! Vou ficando por sua causa, porque não quero ficar sem você.” Jorge olhou bem sério para mim, pegou minhas duas mãos e perguntou: “quer casar comigo?”  Eu respondi: “quero, quero com todo meu amor”! Jorge me deu o mais gostoso e longo beijo do mundo!

Uma conexão de alma, espírito e corpo. Com o pai, uma  paixão e um amor que me preenchiam  totalmente. Com o filho, um carinho materno que me alegrava intensamente. 

Portanto, a minha primeira decisão de estadia, que seria um período para escrever um livro, virou ‘para sempre’, com o  casamento. As nossas vidas seguiram um ritmo não muito diferente. Eu continuava escrevendo, Jorge atendendo a plantação. Entretanto, nas feiras íamos os três juntos. Nos bailes da região, nós dois dançávamos até cansar. Havia almoços, jantares para participarmos. E também recebíamos nossos vizinhos. Também tínhamos algumas rusgas, que acabavam muito bem. Nossa vida era simples, portanto os problemas eram pequenos. No geral, uma vida harmoniosa, resultando em muita produção minha, pois a felicidade concorre, até define, o sucesso profissional. Quando se é feliz, trabalha-se com mais animação.  

E, a grande surpresa para nós: gravidez!  E gêmeos! Um casal. Um menino que se tornou muito arteiro e uma menina que se tornou muito brejeira e que nos ‘comprava’ com seu sorrisinho maroto e com sua candura que nos encantava. A preocupação normal com a criação das crianças, a organização da casa, a adequação entre trabalho e vida doméstica, tudo isso tivemos. Situações bem resolvidas.  Na realidade, nada foi complicado, pois Jorge dava um apoio enorme e tinha uma paciência imensa. Com isso me acalmava e facilitava o cuidado com os pequenos. Uma família realmente estruturada e amada pelos cinco membros. 

O prazo que defini para escrever um livro, virou o tempo de uma vida completa, se possível ‘eterna’, com casamento e três filhos. Encontrei meu destino, encontrei meu refúgio de amor, de vida intensa, apaziguada e criativa. Em pleno cenário paradisíaco, quase celestial! 

Por: Maria Teresa Freire - Jornalista, Escritora, Poeta, 
Presidente da AJEB – Coordenadoria do Paraná.
Presidente da ALB - Paraná.



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