COZINHA DE A a Z

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 LETRA B: BOBÓ.

Arlinda Lamêgo.

Em Sampa há um restaurante para cada um, de acordo com sua origem. E os colegas do trabalho me definiram não como nordestina, ou pernambucana, mas como “baiana”. De Minas para cima, era todo mundo “baiano”. Todo nordestino era ‘baiano”. E, pernambucana, tornei-me “baiana”. Hoje não é assim. Descobriram o Brasil. Cada local tem sua particularidade

Diziam que “toda baiana sabe cozinhar”. Pediram que fizesse bobó de camarão. Acho que nunca havia comido um. Euuuuu, perguntava-me ... Sim, euzinha, que tinha duas mãos esquerdas. Busquei minha “Enciclopédia”. Seriam cerca de vinte pessoas. Morava em um apartamento pequeno, tinha apenas o básico. Precisei comprar copos, pratos, talheres, toalha de mesa, panela. A máquina registradora deu o seu som. Comprei uma baixela de 24 serviços, copos e talheres. Uma toalha de mesa e algo grande para servir. Uma panela para fazer o bobó. Até hoje os tenho, intactos. 

Bobó e Moqueca são alimentos bem diferentes. “Bobó” vem do idioma fon de Benim, de conexão ancestral profunda na culinaria brasileira pela diáspora africana no Brasil, que introduziram azeite de dendê e o leite de coco.  A moqueca tem origem indígena, africana e portuguesa. A palavra vem “pokeka”, do tupi, peixes em folhas de palmeira eram assados nos fornos chamados “moquém”.

Na   moqueca baiana, usam-se leite de coco e azeite de dendê, mas a moqueca capixaba não, apenas o peixe em caldo temperado e urucum dá a cor.  Moqueca paraense utiliza peixes da Amazônia, com tucupi (caldo fermentado da mandioca brava) e goma de mandioca. Moqueca caribenha usa leite de coco, banana e abacaxi.

O bobó tem consistência cremosa pela mandioca. Pode ser feito com peixe, ou frango. É acompanhado de arroz branco ou pirão.

Ao bater a mandioca, queimei o liquidificador. Tentei bater a mandioca crua. Fui comprar um novo. Cheia de “dedos”, não sabia nem por onde começar a fazer leite de coco. Sem google e sem IA (Inteligência Artificial), só contava com a minha Enciclopédia. Daí, cozinhei o aipim na água e sal depois que queimei o liquidificador. 

Como limpar o camarão, eu me perguntava. Tive que descobrir onde estava o intestino do camarão. Eu pensava que era um grumo de sujeira na cabeça. O “cocô” do camarão fica nas costas do animal, uma linha escura no final da cabeça até a cauda, retirei com uma faca e palito de dente. O trabalho tinha apenas começado. 

Mil dúvidas, como temperar os camarões. Caso deixe muito tempo, o camarão cozinha pelo limão. Devo ter comprado material para cem pessoas e não vinte pelo trabalho que tive.  Segui a receita. Cortei os tomates, a cebolinha, coentro, pimentões verde e amarelo e transferi para uma panela grande com o leite de coco e um pouco de azeite de dendê. Deixei cozinhar. Bati no liquidificador junto com o aipim. Transferi o creme para uma panela grande. Coloquei os camarões no creme pouco antes da hora de servir. 

Êta bobó caro.

Por: Arlinda Lamêgo - Recifense, Médica, Escritora e Poeta.


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