UMA REFLEXÃO SOBRE POESIA E POEMA

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 Após a leitura que fiz do artigo Poesia e Resistência de Paulo Franchetti.

Ronnaldo de Andrade.



Agradou-me bastante do artigo Poesia e Resistência. A  questão da poesia como resistência e da resistência à poesia têm me causado alguns questionamentos. Parece que na atualidade a poesia tem sido usada mais, do que antes, como resistência ou escudo e veículo de denúncias, com uma linguagem mais objetividade do que subjetividade, usada por certos poetas e poetisas.

Alguém falou que por si só a pessoa por ser poeta já cumpre um papel social. E outra, não sei se foi Mariza Lajolo, disse que a poesia já é um papel social. Eu vejo essas declarações com bons olhos, pois penso que tanto a poesia quanto o poeta atuam no social, são militantes dentro da sociedade, sem ser preciso escolher um lado, um tema, um grupo. 

Massaud Moisés, em sua obra A Criação Poética (1977), diz o seguinte:  
“De  certo modo é verdade: quanto mais se progride a investigação do fenômeno poético, mais a realidade se evidencia, como se o primeiro conduzisse necessariamente ao segundo, ainda que para renegá-lo ou colocá-lo entre parênteses.”  
 
Alguns coletivos e pessoas individuais têm feito prosa e chamam de poesia, quando muitos desses textos não fazem lembrar, pela sua estética, essência e composição geral uma poesia moderna (nem clássica), desconsiderando o básico da Lei do Verso. 

Por causa disso, também, é que a forma poética SPINA veio à luz e tem sido aceita, mesmo que de maneira tímida, e ganhado adeptos Brasil afora. As seis antologias do gênero, publicadas nestes sete anos e os mais de vinte livros de autores independentes confirmam o que falei.

Daqui a alguns anos, talvez, algum(a) estudioso(a) tomará conhecimento do SPINA (ou se interessará por ele) e verá sua importância poética e estética, e o que se encontra além desses dois elementos, e poderá falar ao seu respeito e das poetisas e dos poetas que viram no SPINA valor literário, uma nova e instigante forma de se expressarem,  e por isso se dedicaram e se dedicam a ele sem negligenciar em suas escritas os acontecimentos sociais, políticos etc. de sua época.

Todavia; volto ao texto bastante reflexivo e digo que fui surpreendido, positivamente, quando li a referência ao poeta acreano, falecido em 87, o também político,  JG de Araújo Jorge. Poeta do amor e social, dono de uma obra imensa e ignorada pela crítica da época (e atual), mesmo sendo um dos maiores vendedores de livros, como citado no texto Poesia e Resistência, e um dos mais populares poetas do seu tempo. 

Muitos livros de JG, ou simplesmente José Guilherme, tiveram vendas expressivas e reedições que se esgotaram entre quinze e trinta dias. Entre seus livros mais vendidos posso citar Bazar de Ritmos, a coletânea de capa dura e cor vermelha em quatro volume, Os mais Belos Poemas que o Amor Inspirou. Outrossim seu único romance, Um Besouro Contra a Vidraça. A Sós, Canto da Terra, O Poeta na Praça, esses dois últimos de poesias sociais (ou de resistência?) entre outros.

JG de Araújo Jorge estreia na literatura em 34, com o livro Meu Céu Interior. No ano anterior, o poetinha Vinícius de Moraes havia publicado seu  primeiro livro, O Caminho para Distância, isso 33.

Mas, afinal, o que é resistência na poesia? Poesia de Resistência? Também tem o romance de resistência? 

Os críticos atuais, os avaliadores de prêmio de literatura como o Jabuti, o Oceanos etc., têm se interessado mais pela temática da obra do que pelas características que definem cada tipo de poesia e os diversos tipos de romances. O conto e a crônica têm sido analisados levando em conta suas estruturas?  Quais são os tipos de crônicas? Todas seguem o mesmo padrão estético e característicos? Será que só a temática desenvolvida coerentemente justifica a aceitação dentro desse ou daquele tipo de texto e deve  ser aceito como pertencente a ele?

Meu envolvimento é, por menor que seja, maior com a Poesia, por razões que não cabe falar aqui. E não só pela Poesia, mas também pelo Poema onde a poesia existe. Cada tipo de Poema tem uma estrutura própria que recebe a poesia. Vejo o Soneto, a Trova, o Cordel,  a Ode, a Elegia, o Madrigal, a Sátira, o Poema-piada, o poema Concreto; também a poesia-Práxis de Mário Chamie, a poesia Neoconcreta, e algumas das formas poéticas recentes, como: Aldravia, Poetrix, Piramidal, SPINA, só para citar algumas, cada uma com sua bula, seu conceito. E o que dizer do HAIKAI, Haicai, Hokku e Haiku? São a mesma coisa ou têm conceitos distintos uns dos outros? São escritos e pensados como poesia ou poema? Ou quem os pratica pensam neles das duas formas, por saber que ambas andam juntas como aliadas, parceiras, assim, tal e qual no “eu com o próprio eu”?

Sei que há tempos se fala em verso sem poesia. Se o verso não tem poesia, é certo que é poema, porque o poema é formado por verso-linha! 

É muito comum se falar em poesia, porque ela está ligada, a meu ver, a quem a escreve, apresentando as características, o estilo e versatilidade do(a) autor(a) que a compõem. No entanto; quem fala do Poema? Quem criou esse e aquele tipo de Poema e o que os fez ser criados, qual a ideologia por traz dessas criações? Podemos dizer que isso fica para os estudiosos, para os críticos e curiosos responderem. 

Infelizmente, da década de 60 para cá, ou seja, do Concretismo, ou final do século XX, pouquíssimo tem se falado de algum tempo de Poema. E se tratando dos Poemas surgidos no século XXI, esses têm sofrido com o desdém de críticos e estudiosos, que estão com os olhos voltados às formas poéticas do passado, mas exaltam um grupo de poetas modernos, e com o termo moderno não me refiro aos poetas contemporâneos do século XXI. Sim! há quem fala sobre a poesia atual, mas de modo muito sucinto.

Enquanto as formas poéticas atuais continuam sendo objetos de desprezo. Todavia; elas seguem na Luta para resistirem e chegarem à posteridade, mesmo que seja só fragmentos, como muitas da Baixo Idade Média e Alta Idade Média que chegaram até nós, e, assim, como o Soneto que teve altos e baixos e voltou anos depois a ficar em alta novamente, e é visto como o carro-chefe das formas poéticas.

Há tempos que não se houve falar nem aparece alguém compondo sextina, forma poética antiga. Não que seja necessário o(a) poeta conhecer as Leis do Verso, mas, como salienta Mariza Lajolo (2001): “se saber como se formam os ciclones não nos dá poder sobre eles, saber identificá-los mais cedo, dá tempo de procurar abrigo mais seguro. 

Saber de onde vêm e como se formulam certas noções de literatura, torna nossa opinião mais rigorosa e nossos argumentos mais forte. Permite-nos discernir os recursos teóricos e ideológicos em que se fundam os conceitos oficiais de literatura...”

Portanto, se Poesia é resistência, penso que o Poema tem sua relevância, porque ele existe como suporte daquela, sendo mais resistente por carregá-la. Pode parecer absurda essa afirmativa, mas o Poema é muito mais resistente do que a Poesia. Tanto que muitos continuam existindo sem receberem a devida atenção, como recebem as poesias contidas neles e alguns autores.

É preciso levar em conta os aspetos estéticos de cada tipo de Poema. Aristóteles e Horácio deixaram alguns exemplos sobre isso. 

Por: Ronnaldo de Andrade - Poeta e Professor, tem quatro livros publicados 
e organizou quatro antologias de poemas SPINAS.



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