E A ARTE FINALIZA

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 Maria Teresa Freire.


Jaderson passava mais tempo na Galeria de Irya, sugerindo locais mais propícios para os quadros, melhorar a iluminação para valorizar as pinturas e até fazendo pequenos consertos, tudo em prol do aprimoramento do ambiente. Só por causa disso?

Ajudava  trocando lâmpadas, ‘puxando’ extensões elétricas, pintando algumas paredes de cores diferentes para sobressair a obra. A colaboração dele era no sentido de cuidados com a Galeria, para possibilitar à Irya dedicar mais tempo às aulas de pintura e outras atribuições relacionadas com a arte.

Também se dispunha a acompanhá-la nas negociações de obras para ficarem expostas e serem adquiridas. Jaderson conhecia muita gente por causa da fábrica e loja de móveis. O network dele era amplo, em face da família ter vários negócios. Ele fez contato com alguns artistas que conhecia para realizarem suas exposições na Galeria. Igualmente, convidava os amigos para irem às exposições que Irya organizava. Normalmente, eram um sucesso, pois ela tinha uma análise perspicaz em escolher os artistas plásticos. 

Entretanto, as conversas entre os dois não eram somente sobre arte, quadros ou artistas. Tratavam de contar um ao outro suas aspirações, planos de vida e, inclusive, preocupações. Irya sonhava com a Galeria recebendo exposições de artistas famosos, promovendo concursos para iniciantes, descobrindo novos talentos, enaltecendo as artes plásticas e a escultura, com as quais ela trabalhava. 

O entrosamento entre os dois atrapalhava a vida amorosa de cada um, talvez nem tão amorosa. Irya tinha um namorado com quem não havia uma interação de pensamentos, gostos, preferências e até sentimentos. Jaderson, por sua vez, tinha uma noiva que esperava pelo casamento há bastante tempo. 

E a convivência entre os dois se aprofundou, a conexão se fortaleceu e o amor surgiu, trazendo junto uma necessidade de estarem sempre juntos. A todo momento, sendo possível. Ele ficava na Galeria mais do que deveria e poderia. Ela pedia ajuda dele para tudo. Saiam também para se divertirem. Extensas caminhadas de mão dadas com conversas prolongadas. Jantares quase intermináveis. Cinema, parques, museus, outras galerias, constantemente. 

Até que a família dele chamou-lhe a atenção, pois ele estava se desviando do foco dos negócios. Pressionar a venda da Galeria. Todavia, Jaderson estava extremamente feliz, como não estivera nos últimos anos. Não queria trabalhar com coerção, ameaças. E muito menos intimidar e coagir Irya. Inclusive com outros proprietários estava se tornando mais compreensivo. E a família, novamente, reclamou pesadamente. Sua noiva sofre um acidente de carro, após beber muito, em uma reação depressiva ao comportamento distante de Jaderson. 

A culpa lhe atingiu. Como descuidar da noiva? Como se afastar de Irya? Teria que ser uma ou outra. Sua família, agressiva e controladora, principalmente o tio que a todos dominava, lhe exigia retornar aos seus afazeres e marcar a data do casamento.  

Irya tomou a iniciativa de uma conversa que seria dolorida. Convidou-o para uma caminhada em um parque; assim, o ambiente seria o menos íntimo possível. Sentaram-se em um banco e ela inicia: “Jaderson, hoje temos que refletir juntos sobre nossa relação. Estamos envolvidos demais, porém a verdade é que nossas vidas não combinam”. Surpreso ele pergunta: “como assim? Nós combinamos em praticamente tudo. As preferências são as mesmas em todos os aspectos de nossas vidas”. Irya replica: “ nossas vidas não são somente nós, mas também nossas famílias, nosso passado, nosso trabalho. Somente nós dois nos ajustamos perfeitamente. Entretanto, não vivemos sozinhos e nem podemos viver isolados. Nosso relacionamento está criando um caos com a sua família. Você convive com minha família, eu não posso conviver com a sua. O futuro será sempre assim? Em poucos anos você sentirá falta dos seus familiares. Quanto tempo o amor que sentimos agora durará nessas condições?”.

Jaderson escutou tudo em silêncio. Sabia que ela tinha razão em vários aspectos. Ainda assim ele era feliz com ela, com o amor que sentiam, com o entrosamento perfeito. “E o que você propõe”? Irya, muito séria, disse sem olhar para ele: “vamos terminar”. Jaderson deu um pulo do banco e falou muito tenso: “não vou aceitar isso, não aceito!”

Então, Irya soltou o argumento irrefutável: “sua noiva veio conversar comigo e explicou que seu tio tomará providências pesadas contra você, retirando-o totalmente dos negócios e do convívio familiar. Não quero ser culpada por sua derrocada financeira e principalmente privado da relação com sua família. Este foi nosso último contato. Foi maravilhoso conhecê-lo. Continue com sua vida como era antes de me conhecer e eu farei o mesmo”.

Jaderson, desolado, observou Irya andando, saindo da sua vida, por amor a ele.  

Por: Maria Teresa Freire - Jornalista, Escritora, Poeta, 
Presidente da AJEB – Coordenadoria do Paraná.
Presidente da ALB - Paraná.



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