RECORDAÇÕES DE UMA NOITE DE VERÃO

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José Vieira Passos Filho.


Era uma sexta-feira. Estávamos uns vinte, reunidos no largo, em frente à igrejinha do nosso País do Bananal, povoado histórico, reduto da família Passos, da Viçosa das Alagoas. Noitinha. Conversávamos assuntos campestres. As mulheres falavam sobre religião, crochê, as peripécias dos netos que brincavam na praça.

O cruzeiro em frente ao largo da igreja é o ponto de encontro da família, uma tradição que vem dos nossos antepassados, há mais de 150 anos. Ali, ouvi de meus pais, tios e avós a história de minha família, história transmitida também para eles pelos mais idosos. 

A noite estava fria, era meados de agosto. A turma foi se dispersando. Foram jogar canastra ou assistir as novelas. As crianças continuaram na algazarra; andavam de bicicleta e corriam pelo arruado. Ficamos somente eu e Gutemberg. Olhávamos a criançada, bebericávamos nossa cerveja gelada e contemplávamos a lua que, linda, dominava todo firmamento. Um espetáculo.

Hora de dormir para as crianças. Recolheram-se todas. Uma brisa vinda do nascente soprava com suavidade provocando em nossas faces aquele frio gostoso. Já era quase meia-noite, eu e Gutemberg teimávamos em ficar ali proseando. Estávamos vivendo no Bananal uma noite especial. Noite de lua cheia e de estrelas brilhando. Conversávamos pouco porque não podíamos deixar de admirar o céu iluminado e salpicado de estrelas. Aquele momento único de conversa com lua cheia! A claridade nos envolvia. Era um instante mágico! 

Fui em casa apanhar mais uma cerveja. Quando retornei deparei-me com uma cena que me deixou emocionado: Leandra, minha prima, e Gutemberg, seu esposo, estavam abraçados, chorando. Leandra disse: - “Vim ver vocês e encontrei meu amor chorando. Chorei também”.  Leandra enxugou as lágrimas, beijou o esposo e voltou para dentro de casa. Sentei-me e fiquei ali até que meu companheiro de copo falou: - “Celso, estava chorando de alegria, por ter conquistado uma mulher maravilhosa que é Leandra; por ter tido a alegria de criar mais um filho, Hugo; pelos meus outros dois filhos terem aceitado meu segundo casamento; por fazer parte desta família maravilhosa do Bananal; por estar vencendo na vida profissional e por estar aqui hoje, no Bananal, nesta noite maravilhosa. Sinto-me a pessoa mais bem recompensada do universo”. Ajoelhou-se nos degraus do Cruzeiro, baixou a cabeça e começou a rezar baixinho. Minha emoção também era grande. Silenciei, fiquei esperando que ele terminasse a oração. Quando concluiu, ainda com lágrimas escorrendo pela face deu-me um longo abraço. 

Continuamos sentados no Cruzeiro. Estávamos deslumbrados com o cenário: a lua já do lado do poente; o vento ainda mais frio, mas não tão frio que nos fizesse recolher; a igrejinha imponente dominando o lugar; o silêncio da noite. Toda essa harmonia da natureza nos fez conversar sobre nosso cotidiano, o futuro do Bananal, de nossos filhos, da família. Quantos planos traçamos! Éramos os donos do mundo e como donos do mundo fomos dormir. 

Por: José Vieira Passos Filho - Pres. da Academia Alagoana de Cultura, Sócio Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, Sócio Efetivo da Academia Maceioense de Letras, 
Sócio Honorário do SOBRAMES (AL), Sócio Efetivo da Comissão Alagoana 
de Folclore. Presidente da ALB de Alagoas.


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