TABERNAS EM PORTUGAL

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Arlinda Lamêgo.


Acredite: há outros pratos em Lisboa além do famoso bacalhau: açorda,  sapateira, coelho, tamboril  (um tipo de peixe), saltimboca. Descobri algumas tabernas.

No meu imaginário, ‘taberna” teria  poética no rústico ou artesanal, que pulsa à noite, com fumaça  da lenha e de fumo, cheiro de madeira, vinho e saudade. com vozes entre risos, murmúrios, promessas, que ecoam sem pressa. O ranger da porta de madeira e o chão de pedra acolhem no tempo as  histórias, segredos, confidências. Toalhas gastas de cotovelos e vinho derramado mostram histórias sob a luz das lamparinas. No canto, um violeiro dedilha melodias que falam de sonho e  memória. 

Conheci em Lisboa a primeira taberna. Depois, conheci mais duas. A primeira,  era um restaurante  classe ‘A’. Lindo,  acolhedor, elegante, requintado. Fugia de meu imaginário. Comida autoral, toalha de algodão, taças e pratos decoradas de diferentes modos. Na nossa mesa,   copos vermelhos e talheres especiais. 

Nas paredes, tabuletas escritas falavam sobre vinhos com  humor  filosófico: “Não comas a vida de garfo e faca, lambuza-te”,   “A felicidade mora no fundo do prato”, “Não deixes para amanhã o que podes comer hoje”, inclusive  na sala de banho (rs) a nossa    toalete (aportuguesada do francês). 

O que via  “não batia” com meu conhecimento. A palavra taberna vem do latim e faz parte da cultura dos lusitanos. Por  milênios e civilizações as  histórias fincaram  em  raízes antigas. Portugal construiu  a tradição com simplicidade e autenticidade,  vida social nas  vilas e portos.  Boteco é a versão brasileira moderna, urbana, popular. 

Na Roma Antiga, lojas de rua ou bar rústico eram às vezes anexadas às casas em local de fronteira. Vendiam-se vinho,  pão, azeite, refeições rápidas e trocavam-se histórias.  Na Europa medieval, lugar de hospedagem e refeições para viajantes, soldados, trabalhadores, camponeses e mercadores. Era ponto de encontro para solitários, aventureiros. Quartos nos fundos iniciaram o  conceito de   hospedaria. 

Embora pareçam sinônimos, há nuances entre taberna, taverna x boteco. Encontram-se outros nomes como locanda,  tasca  ou tasco, baiuca ou bodega. O termo taberna  é o  mais antigo. Taverna  é literário.  Aparece em literatura medieval e renascentista, romances portugueses, músicas folclóricas. Nomes temáticos como ‘O Cálice Dourado’, ‘Descanso do Cavaleiro’, ‘ O Touro e  o Urso’, ‘Os três castelos’,  O Dragão de Prata’ .

Pedi uma Cataplana, de origem no período Árabe. É um  prato típico do Algarve. Costumo pedir o que não conheço. O utensílio metálico de cobre ou latão tem formato de concha. Encontram-se pelas tabernas no país. Funciona como uma câmara de vapor, espécie de panela de pressão rudimentar. Já  existe em alumínio, aço e  elétricas.

A cataplana mais tradicional é a  de marisco, mas pode ser de peixe, de porco com amêijoas (moluscos parecidos com nossos vôngoles) ou  mista. Ameijoas à Bulhão Pato é o clássico dos clássicos, servidas com pão. Montar camadas na cataplana  e cozinhar no vapor, preservando sucos. 

A segunda taberna era diferente, mas igualmente sofisticada. É especializada em carne. O ambiente é totalmente escuro, com luzes de velas e lâmpadas sutis. O esmero das mesas,  atendimento sommelier, pratos com sousplat, toalhas  e  guardanapos de linho.

A terceira  foi mais  simples. Mesmo assim com prêmio Michelin. Parece um restaurante simples, comum. Poucas coisas na parede. Lembra  taberna a porta do sanitário,  de velho oeste. 

Todas merecem retorno.

Por: Arlinda Lamêgo - Recifense, Médica, Escritora e Poeta.


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