SÃO JOSÉ DOS AUSENTES: O REINO DOS CÂNIONS, DAS ARAUCÁRIAS E DOS VENTOS ETERNOS

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Marcos Eugênio Welter.


Existem lugares que encantam pelas construções históricas, outros pela gastronomia ou pela agitação de suas ruas. São José dos Ausentes, no entanto, conquista o visitante por algo muito mais raro: sua natureza praticamente intocada. Situado no extremo nordeste do Rio Grande do Sul, na divisa com Santa Catarina, o município é um verdadeiro santuário ecológico onde o vento sopra livre sobre os campos de altitude, a neblina desenha cenários misteriosos e enormes cânions rasgam a paisagem formando um dos espetáculos naturais mais impressionantes do Brasil.

Ali, o tempo parece seguir um ritmo diferente. As porteiras continuam abertas para receber os viajantes, os antigos muros de pedra ainda delimitam fazendas centenárias, as araucárias resistem ao passar dos séculos e os campos verdes se estendem até onde os olhos conseguem alcançar. É um destino que preserva a essência dos antigos tropeiros e oferece ao visitante uma experiência única de contemplação, tranquilidade e contato direto com a natureza.

A história de São José dos Ausentes começa muito antes de sua emancipação política. Em 1727, missionários jesuítas acompanhados por indígenas guaranis ergueram uma cruz para registrar a posse de uma vasta área de terras conhecida como **Saída dos Conventos**, uma região estratégica utilizada pelos tropeiros que cruzavam o Sul do Brasil conduzindo gado entre o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.

Naquela época, a Coroa Portuguesa distribuía grandes extensões de terras através das chamadas sesmarias, concedidas a homens considerados capazes de desenvolver economicamente a região. A imensa propriedade foi entregue ao tropeiro Francisco Carvalho da Cunha, personagem importante no processo de ocupação daqueles campos.

O destino, porém, reservava uma curiosa sequência de acontecimentos. Francisco Carvalho da Cunha faleceu sem deixar herdeiros. Como determinava a legislação da época, suas terras retornaram ao chamado Juízo de Ausentes, sendo posteriormente leiloadas e adquiridas pelo Capitão Antônio da Costa Ribeiro. Mais uma vez, a história repetiu-se: o novo proprietário também morreu sem descendentes.

As terras voltaram novamente ao Juízo de Ausentes e acabaram sendo arrematadas pelo Padre Bernardo Lopes da Silva. O inesperado aconteceu pela terceira vez. Após sua morte, novamente não existiam herdeiros legais para assumir aquela enorme propriedade rural.

A repetição dessa situação acabou marcando para sempre a identidade da região. Os antigos moradores passaram a fazer referência ao local como “as terras dos ausentes”. Com o crescimento da comunidade e sua posterior emancipação, acrescentou-se o nome do padroeiro São José, surgindo oficialmente o município de São José dos Ausentes, uma denominação que preserva até hoje uma das histórias mais curiosas da formação territorial gaúcha.

Com pouco mais de três mil habitantes espalhados por uma área superior a mil quilômetros quadrados, o município é um dos menos populosos do Rio Grande do Sul, característica que contribui para manter preservada sua paisagem natural. Cercado pelas montanhas da Serra Geral e abraçado pelo estado de Santa Catarina, São José dos Ausentes abriga algumas das maiores altitudes do Sul do Brasil, onde o inverno costuma ser rigoroso, registrando frequentemente temperaturas negativas, geadas intensas e, em alguns anos, até mesmo a rara ocorrência de neve.

Durante boa parte do ano, densos bancos de neblina envolvem os campos como um enorme manto branco. Ao amanhecer, quando os primeiros raios de sol rompem a cerração, o cenário parece saído de um conto de fadas. O frio intenso, o silêncio absoluto e o canto das aves transformam cada amanhecer em um espetáculo inesquecível.

A vegetação é dominada pelos tradicionais Campos de Cima da Serra, onde imensos gramados naturais convivem harmoniosamente com capões de mata nativa e majestosas araucárias centenárias. Em seus galhos vivem inúmeras espécies de aves, enquanto mamíferos como cervos, graxains, tatus e outros animais silvestres ainda circulam livremente por uma natureza preservada.

Outro elemento que impressiona o visitante são as antigas taipas construídas com pedras encaixadas manualmente pelos primeiros colonizadores. Sem utilizar qualquer tipo de argamassa, essas estruturas desafiam o tempo há mais de um século, delimitando propriedades rurais, currais e mangueiras. São verdadeiros monumentos históricos espalhados pela paisagem, testemunhas silenciosas da coragem dos homens que desbravaram aquelas terras praticamente inexploradas.

A economia local mantém fortes raízes na pecuária de corte e na criação de ovinos, atividades desenvolvidas há gerações pelas famílias da região. Nas áreas mais férteis prosperam ainda os cultivos de batata e maçã, beneficiados pelo clima frio típico da serra. Nos últimos anos, entretanto, foi o turismo ecológico que passou a ocupar papel de destaque, atraindo visitantes de todas as partes do Brasil em busca das paisagens únicas da Serra Geral.

Entre as maiores atrações está o impressionante Cânion Montenegro, considerado o ponto culminante do Rio Grande do Sul, com aproximadamente 1.403 metros de altitude. O acesso exige disposição, pois boa parte do percurso é realizada por estrada de chão, mas cada quilômetro percorrido é amplamente recompensado.

Ao chegar à borda do cânion, a sensação é difícil de descrever. Paredões gigantescos despencam quase verticalmente por cerca de mil metros, formando um abismo monumental esculpido durante milhões de anos pela força da natureza. Pequenas cachoeiras descem pelas rochas, formando delicados fios de água que desaparecem entre a vegetação muito abaixo do observador. Nos dias claros, a vista alcança dezenas de quilômetros de montanhas, vales e campos, criando um panorama simplesmente inesquecível.

Durante a viagem até o cânion, a natureza costuma brindar os visitantes com encontros inesperados. Não é raro avistar cervos cruzando as estradas ou ouvir o chamado das gralhas-azuis, aves responsáveis pela dispersão das sementes das araucárias e consideradas símbolos da preservação das florestas do Sul.

Poucos quilômetros adiante encontra-se outro espetáculo natural: o Cachoeirão dos Rodrigues. Escondido entre os campos, o conjunto de quedas d’água despenca pelos paredões formando uma paisagem de rara beleza. O local ganhou notoriedade nacional ao servir como cenário para diversas gravações da minissérie “A Casa das Sete Mulheres”, produção inspirada na Revolução Farroupilha que retratou um dos períodos mais importantes da história do Rio Grande do Sul.

Seguindo pelas estradas serranas chegam-se aos cânions da Rocinha e da Roça Velha. São locais onde a força da natureza revela toda sua imponência. Durante minha visita, o vento soprava com tamanha intensidade que mal era possível permanecer de pé. O automóvel balançava constantemente e bastaram poucos passos fora dele para compreender que seria imprudente aproximar-se das bordas dos paredões. Permaneci apenas alguns minutos contemplando aquela imensidão de dentro do veículo, admirando um espetáculo que demonstrava, acima de tudo, o respeito que devemos ter diante da força da natureza.

Em contraste com a imponência dos cânions, o Vale das Trutas oferece uma atmosfera acolhedora e tranquila. Pequenas cabanas de madeira pintadas de vermelho dividem espaço com jardins repletos de hortênsias coloridas, enquanto lagos abastecidos por águas cristalinas convidam famílias inteiras a passarem horas pescando e desfrutando da paz que somente o campo é capaz de proporcionar. Crianças, pais, avós e netos compartilham momentos simples que acabam se transformando nas melhores lembranças da viagem.

Nenhuma visita à região estaria completa sem conhecer o magnífico Cânion Fortaleza, localizado no vizinho município de Cambará do Sul. Considerado um dos cânions mais impressionantes da América do Sul, possui enormes paredões de basalto que parecem tocar o céu. Em dias de excelente visibilidade, é possível enxergar o litoral gaúcho e até mesmo a cidade de Torres, distante dezenas de quilômetros. Caminhar por suas trilhas é uma experiência que mistura emoção, contemplação e profundo respeito pela grandiosidade da natureza.

Mas talvez o maior encanto de São José dos Ausentes não esteja apenas em seus cânions, cachoeiras ou paisagens. O verdadeiro tesouro encontra-se na hospitalidade de seu povo, nas histórias contadas ao redor do fogo de chão, no cheiro da lenha queimando nos fogões campeiros, no chimarrão compartilhado entre amigos e na simplicidade de uma comunidade que aprendeu a viver em perfeita harmonia com o ambiente que a cerca.

São José dos Ausentes não é um destino para quem tem pressa. É um lugar para respirar profundamente, ouvir o silêncio interrompido apenas pelo vento, observar o voo das aves sobre os campos infinitos e compreender que ainda existem recantos do Brasil onde a natureza permanece soberana.

Quem percorre suas estradas leva consigo muito mais do que belas fotografias. Leva a certeza de ter conhecido um dos últimos grandes refúgios naturais do Sul do país, onde cada amanhecer revela uma nova paisagem, cada curva da estrada esconde uma surpresa e cada horizonte lembra que a verdadeira riqueza está justamente naquilo que permanece preservado.

Por: Marcos Eugênio Welter - Vice-Presidente Nacional da Academia de Letras do Brasil, 
Membro do Conselho Superior Internacional da 
Academia de Letras do Brasil.


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