A Fantástica Fábrica de Golpes, Primeira Parte

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DRª Virginia Pignot.

 

I Introdução

Escrevi uma crônica com esse título, emprestado do documentário de mesmo nome, para o livro Talentos que Falam.

Vamos tentar sintetizá-la para os leitores do Jornal Terra da Gente, dividindo a crônica em dois artigos.

O documentário A Fantástica Fábrica de Golpes, que mostra a participação da mídia nos ataques à jovem e sofrida democracia brasileira, e um artigo da revista Carta Capital sobre o histórico dos golpes no Brasil desde o tempo de D. Pedro II nos servirão de base de apoio.

Cada ataque à democracia pelas chamadas elites brasileiras se acompanha da criação de um inimigo comum designado, a ser combatido, morto, preso, destituído, exilado.

No século XX lutaram e levaram ao exílio o presidente João Goulart, que defendia a reforma agraria, e direitos dos trabalhadores, chamando-o de comunista. Militares e a mídia criticavam regimes comunistas mas instalaram aqui um regime autoritário e violento que matou jornalistas, estudantes, representantes sindicais… como o fez o soviético Stalin que criticavam.

A tomada de poder por meios autoritários, tem na realidade finalidade escondida, o ataque de direitos dos trabalhadores e a manutenção de privilégios da minoria abastada. No século XXI por exemplo, nas vésperas da eleição de 2018, “transformaram” um candidato, professor universitário digno, ex prefeito de S. Paulo e ex ministro da educação, em suposto perverso, pedófilo, e corrupto. Depois das eleições, ele é inocentado da denúncia inepta, mas a mídia e redes sociais não fazem o necessário contraponto. Nestes casos, agem como terroristas de jornais e redes, destruindo vidas e reputações de modo irresponsável. 

- Qual é o objetivo do meu escrito? 

Transmissão de saberes, trazendo a versão da história calada pela mídia dos barões. Quem sabe, pelo conhecimento compartilhado, nosso povo de natural crédulo não caia mais nas armadilhas sucessivas e bem montadas dos golpistas de plantão. Associo-me aos diretores do documentário A Fantástica Fábrica de Golpes para denunciar uma prática de distorção da informação que fere a ética jornalística para enganar a opinião pública.

II Histórico dos golpes

1) Começaremos com o governo de D. Pedro II, no século XIX

 “A badalada Proclamação da República foi na verdade, um repulsivo golpe militar, urdido pela elite da época em conluio com os marechais Floriano Peixoto, Deodoro da Fonseca e o tenente-coronel Benjamin Constant.”(1)

Antes de ser banido em 1889, contra o desejo da maioria da população, D. Pedro II tinha um programa de governo progressista que visava o desenvolvimento do país. Ele considerou a educação uma prioridade nacional, cuidou da formação para as elites, da escolarização e outras medidas inclusivas para a população pobre, criou um Instituto de pesquisa em parceria com o Instituto Pasteur, para trazer e fabricar vacinas no Brasil… Anos depois da sua morte, seus restos mortais são trazidos ao Brasil e ele é tratado como um herói nacional.

Dois detalhes: quem entregou o decreto de banimento ao imperador e já havia sugerido o seu fuzilamento, foi o avô de FHC, o alferes Joaquim Ignácio Cardoso, e a história não registra nem um crime de responsabilidade contra o imperador”. (2) Podemos fazer um paralelo com o neto do alferes e ex Presidente da República Fernando Henrique Cardoso, cujo partido amargava 4 derrotas para o PT na disputa presidencial, e que traiu a democracia para apoiar a queda da presidente Dilma, apesar do suposto crime de responsabilidade criado por deputados da oposição só para a ocasião, pois pedaladas fiscais foram cometidas por presidentes antes e depois dela, sem serem criminalizados.

2) A Sucessão de golpes no século XX


a) Getúlio golpista, e Getúlio vitima de um golpe

Em 24 de outubro de 1930 o presidente Washington Luis foi deposto por um golpe militar que impediu a posse do novo presidente eleito Julio Prestes, que vencera as eleiçoes para Getulio Vargas, sob a alegação de fraude eleitoral. Com este golpe que interrompeu a estabilidade democrática do país Getúlio Vargas assumiu o governo durante 15 anos, quando foi afastado por militares. 

Com o tempo Getúlio se aproximou dos trabalhadores, fez reformas trabalhistas que os favoreceram, e ganhou o apelido de “pai dos pobres”, criando insatisfação na “Casa Grande”. 

No seu segundo mandato, em 1950, agora eleito pelo povo, o seu Ministro do trabalho, João Goulart, propôs o aumento de 100% do salário Mínimo. Getúlio o demitiu para acalmar a insatisfação dos golpistas, mas depois dobrou o valor do salário mínimo no primeiro de maio. Getúlio também nacionalizou a Petrobras e deixou claro para os americanos gananciosos que o petróleo era nosso. Ele foi então vítima de uma enorme campanha de calunia, escancarada sem vergonha no rádio e jornal o Globo, então nas mãos de Roberto Marinho, enquanto a TV Tupi de Chateaubriand abria seus canais a Carlos Lacerda para incentivar a renúncia do gaúcho, acusando Getúlio injustamente de participação a um assassinato. 

A pressão foi tão intensa que Getúlio se suicidou no dia 24 de agosto de 1954. Saiu da vida, mas entrou para a história de maneira digna. A revolta popular explodiu nas ruas, o povo atacou por exemplo o carro que fazia a distribuição do jornal o Globo, já identificado pela sabedoria popular na época como principal responsável pelo ataque ao trabalhismo e a Getúlio. Essa revolta inibiu os golpistas durante alguns anos.

Lula também foi acusado e condenado injustamente, e agora inocentado. Ele se rendeu e evitou a revolta popular, mas teve apoio incondicional na vigília Lula Livre nos 580 dias de carcere.

b) A mídia antidemocrática durante o golpe de 1964

O uruguaio René Dreifuss, no livro 1964 -A Conquista do Estado, descreve a usina que fabricou o golpe militar de 1964, e interrompeu a estabilidade democrática do Pais. Banqueiros, grandes empresários e 300 multinacionais americanas abarrotando os cofres do Instituto IPES para derrubar o presidente João Goulart, eleito dentro das regras democráticas do país. O golpe consumado, iniciando os 21 anos da violenta ditadura militar, o Globo sapecou essa enorme noticia falsa na primeira página do jornal: “Ressurge a Democracia”; Estadão, Folha, Jornal do Brasil celebraram a instalação do regime militar. Na época a revista Veja se posicionou contra o golpe.

Falaremos do golpismo no século XXI e de detalhes do documentário A Fantástica Fábrica de Golpes no próximo artigo.

III Como evitar que a história se repita ?

No seu livro A Elite do Atraso - Da Escravidão à Lava-Jato(2) Jessé de Sousa fala do trabalho de distorção sistemática da realidade realizado pela mídia, que contribui para o sentimento “viralatista” do Brasil. 

Como fazer para romper com este ciclo de golpes que depõe governos legitimamente eleitos pelo povo, para substitui-los por governos autoritários que como um monstro devora as conquistas sociais na sua passagem, enquanto enriquecem ainda mais banqueiros e corruptos?

Como acontece no trabalho psicanalítico, vamos ficar hoje com esta questão. Até a próxima “sessão”.

Bibliografia

1 A real história dos golpes no Brasil por Blog do sócio, Carta Capital, 21-05-2019

2 A Elite do Atraso: Da Escravidão à Lava Jato de Jessé de Souza, 2017


Por: DRª Virginia Pignot - Cronista e Psiquiatra.
É Pedopsiquiatra em Toulouse, França.
Se apaixonou por política e pelo jornalismo nos últimos anos. 
Natural de Surubim-PE


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