IRMÃ EMÍLIA, 90 ANOS DE FÉ, MISSÃO E GRATIDÃO

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Viajar ao Rio Grande do Sul para celebrar os 90 anos da querida Irmã Emília Welter foi uma experiência marcada por emoção, espiritualidade e reencontros inesquecíveis. Ao lado do mano Cláudio e de sua esposa Salette, participamos de uma homenagem que ficará para sempre gravada na memória, um tributo a uma mulher cuja vida é exemplo de amor, entrega e fé.

Irmã Emília é uma dessas pessoas raras que iluminam o mundo com o próprio testemunho. De coração generoso e espírito incansável, dedicou-se por décadas à missão religiosa e educacional em diversos países, encerrando sua trajetória de serviço em Moçambique, na África. Lá, ajudou a transformar escolas, hospitais e comunidades inteiras, levando esperança a quem mais precisava. Seu trabalho humanitário foi tão grandioso que chegou a ser indicada ao Prêmio Nobel da Paz, reconhecimento que simboliza a profundidade de sua fé e a força de sua vocação.

Antes das comemorações, passamos alguns dias em Gramado, desfrutando da beleza e do encanto da serra gaúcha. Caminhamos entre flores no Le Jardin, saboreamos o famoso strudel da casa, passeamos pelas margens do Lago Negro e vivemos momentos agradáveis em torno de um fondue delicioso e de um almoço típico na Casa do Colono. Esses dias foram um prelúdio harmonioso para o que estava por vir: celebração, espiritualidade e reencontros que aqueceram o coração.

Com a gentil hospitalidade da própria Irmã Emília, ficamos hospedados na Casa Betânia, em Não-Me-Toque, um lar de repouso para freiras idosas da Congregação das Irmãs de Notre Dame, fundada por Santa Júlia Billiart. Logo na chegada, fomos recebidos com sorrisos, abraços e uma acolhida cheia de carinho. Irmã Emília, mesmo aos 90 anos, surpreendeu-nos com sua firmeza e disposição, caminhando com segurança e transmitindo serenidade. A Madre Superiora, Irmã Marli, guiou-nos por um passeio pelos jardins e pomares da casa, onde as próprias religiosas cultivam frutas e hortaliças que alimentam a comunidade.

Durante a caminhada, ao ver uma plantação de cenouras, pedi permissão, arranquei uma da terra, lavei e a comi ali mesmo, saboreando o gosto simples que me fez voltar no tempo, à infância no campo. Cláudio, sorrindo, fez o mesmo gesto. Aquele momento de pureza e simplicidade traduziu a paz que reina na Casa Betânia, onde cerca de quarenta religiosas vivem dedicadas à oração, à partilha e à fé.

No dia 13 de setembro de 2025, seguimos para Selbach, terra natal da Irmã Emília. A cidade parecia vestida de festa. As plantações de milho, trigo e cevada emolduravam o caminho, pontuadas por flores coloridas que davam boas-vindas aos visitantes. Na sede da ASSEPSEL, foi realizada a grande celebração dos 90 anos, organizada com zelo por Cirlei, também responsável pela tradicional Welter-Fest, evento que reúne gerações da família Welter. Tivemos a alegria de reencontrar Rudi, que por várias gestões foi prefeito de Selbach e que, com orgulho, contou que há mais de duas décadas o município é administrado por descendentes da família Welter.

A homenagem à Irmã Emília foi marcada por emoção e espiritualidade. Durante a celebração, conduzida por um padre, a aniversariante permaneceu serena, sentada ao lado da Madre Superiora, de Cláudio e de mim, irradiando paz e gratidão. Quando tive a palavra, apresentei um banner confeccionado anos atrás por nosso saudoso mano Dagoberto, em comemoração aos 170 anos da imigração dos Welter, vindos de Trier, na Alemanha. Relembrei a história dos irmãos Joseph e Johan, que cruzaram o oceano em busca de novas oportunidades. Joseph, avô da Irmã Emília, fixou-se no Rio Grande do Sul, enquanto Johan, meu trisavô, permaneceu em Santa Catarina. Durante muitos anos, mantiveram contato por cartas, até que a distância e o tempo interromperam essa ligação. Quatro gerações depois, foi justamente a Irmã Emília quem, com sua missão e presença, uniu novamente os ramos dessa família.

Em minha fala, recordei também as obras notáveis que ela realizou em Moçambique, onde pude acompanhá-la e testemunhar sua coragem e dedicação. Mencionei as curiosas semelhanças entre nossos ramos familiares: na linhagem da Irmã Emília há três freiras, Cecília, Verônica e Carmen, além de Irene e Ivanir; na nossa, há dois padres e também Verônica, Carmen, Irene e Ivanir. Entre risos e lágrimas, Cláudio comentou: “Olha lá, igualzinha à mana Irene.” Salette completou: “E esta aqui é a cara da Regina.” Nesse momento, um homem se aproximou, abraçou o Cláudio e disse: “Você é igualzinho ao meu pai.” Quatro gerações haviam se passado, mas os laços, os rostos e o sangue permaneciam inquebráveis.

Descobrimos que não éramos os únicos a vir de longe. Patrícia viajou do Havaí especialmente para esse encontro, o que reforçou o caráter simbólico e afetivo daquela celebração.

Após a missa, todos se reuniram para um almoço farto e alegre, repleto de pratos típicos, música e boas risadas. Uma sanfona dava o tom da festa, embalando cantos de alegria e comunhão. O clima era de gratidão, fé e amor, sentimentos que sempre acompanharam a vida da Irmã Emília. Conversei longamente com Paulo Welter, Rudi, Paulo da Bernadete, Maria Amália e tantos outros familiares, fortalecendo laços e sonhando com futuros projetos, entre eles um registro biográfico sobre a extraordinária trajetória da Irmã Emília.

A viagem totalizou cerca de 1.600 quilômetros de ida e volta, percorridos com minha fiel Hilux, a mesma que já me levou até o Alasca e que hoje ultrapassa os 240 mil quilômetros de estrada. Levamos conosco livros de cantos, e durante boa parte do caminho, entoamos hinos e canções, tornando o percurso ainda mais leve e cheio de significado.

Fomos com o propósito de homenagear a Irmã Emília em seu aniversário, mas, ao final, percebemos que fomos nós os presenteados. Voltamos com o coração repleto de gratidão, fé renovada e uma sensação profunda de paz. Estar ao lado dessa mulher extraordinária, celebrar sua vida e testemunhar a força de sua missão foi uma experiência transformadora.

A Irmã Emília, aos 90 anos, continua sendo um farol de fé, humildade e esperança. Sua vida dedicada ao próximo é um exemplo vivo de que o amor e a doação são as maiores formas de servir a Deus. Voltamos para casa certos de que pessoas como ela tornam o mundo melhor e nos ensinam que a verdadeira felicidade está em amar, servir e agradecer.






Por: Marcos Eugênio Welter - Vice-Presidente Nacional da Academia de Letras do Brasil, 
Membro do Conselho Superior Internacional da 
Academia de Letras do Brasil.


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