USHUAIA EM MEMÓRIAS: O NASCIMENTO DE UM LOBO-MARINHO

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Lobos Marinhos.



 Após rodar 3.450 quilômetros entre o Brasil e a Argentina, finalmente cheguei à Península de Valdés, um dos pontos do percurso que eu mais ansiava conhecer. Sob ciprestes com aroma que lembrava sândalo, preparei uma refeição improvisada feijoada em lata com arroz integral que, acompanhada de uma cerveja Quilmes, desceu rápida, quase sem ser sentida. A pressa tinha motivo: ali começava um encontro profundo com a fauna marinha.

A primeira loberia ficava a apenas quatro quilômetros de Puerto Pirámides. Ao chegar, a sensação foi indescritível. Centenas de lobos marinhos ocupavam áreas pedregosas próximas às falésias, em um local de difícil acesso ao homem, talvez justamente por isso preservado. A maioria das fêmeas estava acompanhada de filhotes recém-nascidos, que brincavam em pequenas poças de água sob os olhares atentos das mães, enquanto os machos, cerca de três vezes maiores, vigiavam o território com rigor, impedindo a aproximação de invasores vindos de loberias vizinhas.

Mesmo com o cheiro forte e desagradável característico do ambiente, permaneci ali por horas, completamente absorvido pela cena. Foi então que algo extraordinário aconteceu: uma fêmea entrou em trabalho de parto. Entre sangue e esforço, nasceu um pequeno lobo marinho, diante dos meus olhos. A mãe passou a lamber a cria enquanto dezenas de gaivotas disputavam a placenta, compondo um retrato cru e real da vida selvagem. Muitos turistas entraram e saíram do local, mas a paciência me permitiu testemunhar o nascimento de um animal em seu habitat natural. Só isso já teria valido toda a viagem.

Os machos, quando chegam às ilhas para o acasalamento, permanecem cerca de dois meses sem se alimentar. Se se afastarem para comer, ao retornarem, seu rebanho já terá outro líder. Para afastar invasores, emitem urros graves e exibem seu tamanho e a imponente juba, semelhante à dos leões. Quando há confronto, as fêmeas afastam rapidamente seus filhotes, enquanto os machos brigam com dentadas e cabeçadas, até que o vencido, ferido e sangrando, se afasta.

Entre 1917 e 1953, somente na Península de Valdés, cerca de 260 mil lobos marinhos foram mortos pelo homem. A partir desse período iniciou-se um processo de conscientização e proteção. Hoje, vivem ali cerca de 20 mil animais, número que antes era abatido anualmente. Lobos marinhos, também chamados de leões marinhos, diferenciam-se dos elefantes-marinhos pela locomoção em terra: utilizam tanto as nadadeiras dianteiras quanto as traseiras para caminhar, enquanto os elefantes-marinhos se arrastam usando apenas as dianteiras.

Perto dali, em Caleta Valdés, tive o primeiro contato com os pingüins. Eles se aproximavam a menos de um metro, indiferentes à presença humana. No entanto, o vento forte, gelado e cortante, carregando areia e chuva, me obrigou a recuar. A maior pinguineira do planeta ficava a 180 quilômetros dali, em Punta Tombo, aguardando uma próxima etapa da viagem.

Na cidade de Trelew, visitei o Museu Paleontológico Egidio Feruglio, que abriga cerca de 30 dinossauros, entre eles o maior já encontrado na Patagônia, além de cinco mil peças que reconstituem a fauna e a flora da região ao longo de milhões de anos. Ossos com mais de dois metros de comprimento revelam a existência de animais gigantescos. Do lado de fora, a paisagem é desértica, plana e monótona, com vegetação rala por quase mil quilômetros. As raras cidades no caminho pareciam cidades fantasmas. Viajei dezenas de quilômetros sem cruzar com qualquer veículo ou casa.

Em um ponto da Ruta 3, uma pequena placa indicava discretamente “Árvores Petrificadas”. Segui por uma estrada empoeirada ao entardecer e cheguei ao local já à noite, quando o céu se tingia de um vermelho intenso, no mais belo pôr do sol que já presenciei. Um antigo esqueleto de ônibus com a inscrição “Aerolíneas Argentinas” marcava a entrada do camping. O proprietário apareceu apressado para avisar que luz e chuveiro só funcionavam por gerador, desligado pontualmente às 21 horas. Após insistência, consegui que o gerador fosse religado, apesar da convicção dele de que tomar banho após viajar por estradas empoeiradas era totalmente desnecessário.

Passei a noite sob vento intenso e, na manhã seguinte, contemplei as maiores árvores petrificadas do planeta. Troncos com mais de três metros de diâmetro e até cem metros de comprimento jaziam no solo havia cerca de 150 milhões de anos, do período Jurássico, quando a América ainda estava unida à África e não existiam o Oceano Atlântico nem a Cordilheira dos Andes. Vulcões fossilizaram uma floresta que um dia foi selva e hoje é deserto, transformada em Parque Nacional, pouco visitado por ser distante, de difícil acesso e mal divulgado.

Nesse lugar onde parece que o mundo acaba, raposas e guanacos mansos se aproximavam sem medo. Vi flamingos de coloração alaranjada e inúmeras ovelhas criadas em escala, resistentes ao frio intenso e aos ventos constantes da região. Cruzei mais de uma vez as fronteiras entre Argentina e Chile, sendo que, no lado chileno, sempre perguntavam sobre alimentos transportados, e frutas eram prontamente confiscadas.

Ao chegar ao Estreito de Magalhães, encontrei ventos violentos e mar agitado que haviam interrompido a travessia das balsas, o único meio de seguir viagem. Filas intermináveis se formavam para ônibus, caminhões e carros. Um único restaurante tentava atender milhares de pessoas ansiosas por algo quente para enfrentar o frio congelante. Gaivotas lutavam contra o vento, sendo derrubadas ao solo e buscando abrigo sob veículos.

Quando a travessia foi retomada, o mar continuava bravio. As balsas, embora protegidas por altas paredes de ferro, eram castigadas por ondas que lançavam água salgada sobre os veículos. Tudo balançava violentamente, e a sensação era de absoluto risco. A meia hora de travessia pareceu uma eternidade. Mas, graças à competência da equipe, desembarquei em segurança na Terra do Fogo.

Era início de janeiro, pleno verão, e ainda assim, às 18 horas, a temperatura não passava de seis graus. A primeira providência foi procurar um posto de lavagem para retirar o sal do veículo e evitar ferrugem. Assim começava mais um capítulo dessa viagem até Ushuaia, marcada pela força da natureza, pela resistência da vida e pela certeza de ter chegado a um lugar onde o mundo parece terminar, mas as lembranças permanecem para sempre.

Por: Dr. Marcos Eugênio Welter.


Pinguins.

Árvores Petrificadas.

Elefantes Marinhos.

Museu Arqueológico em Trelew.




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