CIRCUITO VALE EUROPEU DE CICLISMO, UMA JORNADA DE AMIZADE, SUPERAÇÃO E PAISAGENS INESQUECÍVEIS SOBRE DUAS RODAS

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Pausa para os onze ciclistas.


Por muito tempo, ciclistas de alta performance de Brusque, em Santa Catarina, carregavam dentro de si um mesmo sonho: percorrer o Circuito do Vale Europeu de bicicleta. Curiosamente, um não sabia do desejo do outro. Esse sonho silencioso começou a ganhar forma quando alguns deles passaram a expressá-lo nas redes sociais. E como já se sabe, quando o sonho é de uma pessoa, ele permanece apenas como desejo; quando o sonho é coletivo, ele encontra forças para se tornar realidade.

Assim nasceu essa jornada que uniu ciclismo, amizade, desafio físico e conexão com a natureza. Um grupo de amantes do esporte decidiu colocar o plano em prática e encarar aproximadamente 300 quilômetros de estrada, trilhas, subidas exigentes, descidas técnicas e paisagens de tirar o fôlego.

As bicicletas foram cuidadosamente acomodadas em uma van e, no dia 18 de abril de 2026, ainda antes do amanhecer, às 5 horas da manhã, o grupo partiu de Brusque com destino a Timbó. Foi ali que as bicicletas desceram da van e o verdadeiro espetáculo começou. Time escalado, equipamentos conferidos, expectativa no ar: começava oficialmente o primeiro dia do Circuito do Vale Europeu.

Logo nos primeiros momentos, fomos presenteados pela presença de uma figura especial que produziu um vídeo impecável dos nossos equipamentos, registrando detalhes que já anunciavam a grandiosidade da aventura. Não demorou muito para surgirem os primeiros episódios que toda boa história precisa ter: nosso guia, ainda se adaptando à tecnologia, acabou se confundindo com a rota. Após alguns ajustes, a bússola foi acertada e seguimos firmes pelo caminho correto, já com boas risadas garantidas.

A primeira parada serviu para fotos, contemplação e, curiosamente, para a compra do primeiro terreno da viagem. Um local encantador, aos pés da serra, com rio e uma paisagem que parecia saída de um cartão-postal. A felizarda foi a nossa zagueira Cibele, que levou para casa não só a lembrança, mas também um novo investimento.

Seguimos pedalando por caminhos que alternavam tranquilidade e desafio. De tempos em tempos, o guia insistia em testar rotas alternativas, nem sempre corretas, reforçando a máxima de que tecnologia nas mãos erradas pode render boas histórias. Ainda assim, o clima era perfeito: grupo unido, parceria verdadeira e espírito leve. Mesmo diante de pequenos perrengues, como mala extraviada no transfer, ausência de chopp em um ponto de apoio e algumas incertezas de navegação, a experiência era simplesmente maravilhosa. Pedalar com essa turma fazia tudo valer a pena.

Segundo dia: espiritualidade, subidas e emoção

O segundo dia começou com entusiasmo renovado. Um belo café da manhã na Pousada Stolf, preparado com carinho pelo Marcelo, deu a energia necessária para mais uma etapa desafiadora. Antes de partir, o grupo foi conduzido a um momento de reflexão protagonizado por Rodrigo Welter, nosso campeão mundial, que trouxe palavras de inspiração e conexão.

Com o rumo definido, seguimos pedalando. E, como não poderia faltar, logo no início veio a subida. A famosa Subida dos Anjos colocou à prova o fôlego e a resistência do grupo. As “abelhinhas” assumiram a dianteira, ainda que sem conseguir alcançar a ovelha desgarrada. Superação após superação, chegamos às estátuas que coroam o trajeto, nos recebendo de asas abertas, flores azuis e uma energia difícil de descrever. Era impossível não refletir sobre a beleza da vida e sobre como, muitas vezes, basta levantar os olhos para perceber o quanto há de bom ao nosso redor.

O Caminho dos Anjos é uma rota cênica de nove quilômetros, situada em área rural, cercada por hortênsias e composta por 64 estátuas de anjos com cerca de dois metros de altura, além de um imponente Cristo Redentor de nove metros. Idealizado pelo agricultor Paulo Notari, o local é um convite à contemplação, à espiritualidade e à gratidão. A emoção foi inevitável.

Seguimos pedalando e, claro, subindo. Para alguns, especialmente para quem depende mais das próprias pernas do que de uma E-bike, o desgaste era maior. Ainda assim, o bom humor nunca faltou. Em meio a uma dessas subidas, nosso “pastor da manhã” avistou um verdadeiro oásis em meio à serra e já se imaginava desfrutando de um café da manhã perfeito, com o sol iluminando o rosto e a tranquilidade reinando absoluta.

Foi nesse mesmo trecho que nos deparamos com o Véu de Noiva, uma impressionante cachoeira com cerca de 70 metros de altura. O impacto visual foi tão forte que fez todos diminuírem o ritmo, levantarem os olhos e agradecerem ao Grande Arquiteto do Universo, cuja obra se revelava ali, majestosa e perfeita.

O restante do dia seguiu entre subidas exigentes, descidas prazerosas e muitas gargalhadas. A harmonia do grupo era evidente. Para encerrar, um café especial, música e confraternização. Um violão pendurado na parede foi o suficiente para reunir todos em volta: Welter puxou as canções, Charles também mostrou seu talento, e o ambiente se encheu de alegria. À noite, uma janta maravilhosa preparada por dona Magali e sua equipe fechou o dia com chave de ouro. Dormimos profundamente, com a sensação de missão bem cumprida e prontos para o último desafio.

Terceiro dia: despedida das estradas e celebração

O terceiro e último dia amanheceu com sentimentos mistos. Havia alívio para as pernas e para as nádegas, mas também um aperto no coração. A convivência estava tão boa que dava vontade de esticar a viagem. Ainda assim, o chamado da estrada falou mais alto.

Acordamos com o nascer do sol, um café delicioso à mesa e a preparação para os últimos 90 quilômetros. Com tudo ajustado, partimos sentados na bike, ainda que com certo cuidado nos primeiros minutos. Rota definida, foco ajustado e lá fomos nós.

Como já era de se esperar, logo no início surgiu mais uma subida, daquelas puxadas. Para a maioria, porém, era apenas um detalhe. A força do grupo falou mais alto e o aclive foi vencido sem grandes dramas.

O percurso desse último dia foi um verdadeiro presente. Paisagens deslumbrantes entre áreas de reflorestamento e matas nativas, o sol atravessando as copas das árvores, refletindo nos lagos no alto das montanhas, criavam cenas dignas de pinturas em tela. Houve até quem cogitasse comprar um trator pelo caminho, mas o preço não agradou e a ideia ficou apenas na história.

Como manda a lógica da estrada, depois de subir, veio uma longa e empolgante descida até o Rota Bike, onde paramos para o almoço. Para alguns, a refeição foi um pouco indigesta por conta do ponto da carne, mas nada que comprometesse o espírito da equipe. Seguimos então para os últimos 30 quilômetros, acompanhados por um belo trecho ao lado do Rio dos Cedros.

E, para fechar com emoção, surgiu o temido morrinho do Rio Cunha. Foi ali que a cereja do bolo apareceu. As E-bikes aliviaram um pouco o esforço em comparação ao Alemão no sprint final, mas todos cruzaram esse desafio com sorriso no rosto e sensação de vitória.

O encerramento dos três dias de pedal foi marcante. Risadas, abraços, olhos marejados e uma emoção genuína tomaram conta do grupo. A sensação de dever cumprido era absoluta. Nenhuma recompensa material se compara ao que foi vivido ali.

Teve banho de mangueira em posto de gasolina, organização das tralhas e retorno de van para Brusque. Logo na saída, o trânsito parado quase nos fez cogitar seguir pedalando, mas a via liberou e chegamos em casa, onde familiares e amigos nos aguardavam com carinho.

Balanço final da jornada

Foram 300 quilômetros percorridos, 14 horas e 45 minutos em cima da bike, três dias de pedal intenso, duas noites em pousadas, 43.678 risadas contabilizadas, 11 amigos fiéis, um terreno comprado, nenhuma bicicleta com defeito e 22 nádegas doloridas.

Mas, acima de tudo, ficaram as imagens, as memórias, as histórias e a nostalgia de uma experiência que já nasce eterna.

Participaram dessa jornada inesquecível: Alex, Michele, Cibele, Darbei, Teilon, Billy (Rodrigo), Charlex, Clei, Daniel, Nelson e Rodrigo Welter.

Rodrigo Horner (Billy) e Marcos Eugênio Welter.


Por: Marcos Eugênio Welter - Vice-Presidente Nacional da Academia de Letras do Brasil, 
Membro do Conselho Superior Internacional da 
Academia de Letras do Brasil.




Cachoeira Véu de Noiva.

O autor Billy rodeado pelos amigos Tailon e Rodrigo.

Welter animando a galera.


Caminho dos anjos.








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