MISTÉRIO NO CASARÃO

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Maria Teresa Freire.



Dessa vez, cabia ao Júlio tirar uns dias de folga. Pretendia visitar a pequena cidade em que nascera, no interior do estado de Minas Gerais, para rever muitos familiares e alguns amigos. O vilarejo crescera, tornara-se um município autônomo, evoluíra bastante, graças à instalação de uma fábrica de equipamentos eletrônicos na região. Isto gerara empregos e incentivara a economia. 

Ao encontrar com seus conhecidos foi atualizado das notícias, principalmente uma delas que mobilizava a atenção de todos, sobre outra vítima de morte inexplicável, cujo corpo havia sido encontrado nas imediações do antigo casarão do Barão, que fora comprado por um milionário estrangeiro, Mister Kaufman, fundador e proprietário da fábrica de equipamentos eletrônicos. Ele era um entusiasta da preservação da história e das belezas naturais do lugar e, portanto, mantinha a edificação intocável. Entretanto, coincidentemente, as mortes ocorreram algum tempo após a compra do imóvel.

Júlio aguardava Fernanda que também conseguira uma folga e faria companhia a ele para relembrar a infância. Essas notícias, certamente aguçariam a curiosidade dela. Ainda mais, que era o terceiro caso, nos últimos cinco anos. O morto era um pescador, cujo corpo fora encontrado com pequenas queimaduras espalhadas pelo corpo, idêntico aos dois outros. 

Fernanda estava para chegar. Não precisou esperar muito, seu ônibus logo estacionou na rodoviária. Saudaram-se efusivamente, pois sempre era um prazer encontrarem-se. Eles tinham uma conexão muito forte. Amor envolvido em muito entendimento, em convicções semelhantes, em modos de pensar coincidentes, em vivência entusiasmante. A história narrada deixou a jornalista pasma. Seguiram para o hotel. Antes de iniciarem suas investigações, se entregariam ao amor doce, suave, apaixonado e muito saudoso. Alguns dias distantes não fazia bem a eles. Curtiam a companhia um do outro. De todos os jeitos.

À noitinha saíram para jantar, encontraram amigos de Júlio e entre outros papos, abordaram os tais assassinatos. Júlio e Fernanda mostraram interesse em conhecer os fatos com mais detalhes, para uma reportagem de Fernanda. Indicaram que eles conversassem com um cara que morava bem afastado da cidade, em uma pequena palhoça escondida por espessa mata. Indicaram como chegar até o local.

No dia seguinte cedo, Júlio e Fernanda seguira uma trilha estreita, pouco convidativa, que levava à choupana indicada. Zé, como se apresentou, era um homem muito simples, sobrevivia do que a natureza lhe ofertava, caça, pesca e coleta de frutas e sementes silvestres. Não plantava, nem criava. Ele e sua companheira, Rita, faziam algumas peças de artesanato, de palha e madeira entalhada, que, eventualmente, vendiam à beira da rodovia. Apesar da simplicidade, era bastante esperto. 

Júlio foi bastante perspicaz e não abordou, de imediato, o assunto que os interessava. Ao infundir confiança em Zé começaram a perguntar sobre os fatos ocorridos e obtiveram muitas informações que os levariam adiante. 

Ao perguntar se poderiam falar sobre os fatos com outras pessoas, Zé indicou os herdeiros do falecido Barão e também o dono da padaria (a maior da cidade) cujo sogro era um dos assassinados. Primeiro foram até o casarão. O rapaz que lá trabalhava informou que haviam vendido o sítio para o seu patrão e se mudado para a capital. Segundo o rapaz, não havia mais ninguém da família do Barão morando na cidade. Voltaram para conversar com o dono da padaria. Pediram um lanche e na hora de pagar puxaram conversa.

Empregando sua simpatia, a jornalista conseguiu que o comerciante contasse o que sabia. Descreveu, exatamente, o que o Zé havia relatado. As três mortes ocorreram no final de agosto ou início de setembro, fim de inverno, época na qual não aconteciam chuvas na região. Além disso, sempre sob a lua cheia, ou seja, noites bem iluminadas. Certamente, com a luminosidade natural, as vítimas tomaram conhecimento do segredo do casarão e, por isso, tiveram de ser eliminadas. Teriam que comprovar os fatos relatados.

Tudo pronto para a ação e, na noite predeterminada, desfrutando do magnífico visual proporcionado pela linda lua prateada, lá estavam os dois, devidamente paramentados, ocultos pela vegetação, num ponto de onde descortinavam toda a parte da construção que dava para a enseada. Prepararam o material e um pequeno drone, fazendo com que ele avançasse até se situar a meia distância entre o casarão e o esconderijo onde se encontravam. 

Somente no início da madrugada, uma das janelas do casarão se abriu. Dela saíram voando dezenas, talvez centenas, de minúsculos objetos que refletiam a luz da lua. Pareciam moscas ou abelhas metálicas. A cena estava sendo toda registrada pela filmadora de Fernanda e o drone que ela direcionou para o casarão. Repentinamente, aqueles objetos mudaram sua trajetória e se dirigiram para o drone, mas Fernanda já tinha suficiente material e trazia o objeto de volta. Fernanda e Júlio, rapidamente, colocaram todo o material nos estojos impermeáveis, mergulharam com máscaras, levando o precioso equipamento. Ainda perceberam alguns dos pequenos objetos metálicos voando em direção a eles e disparando seus raios de luz. Eram minúsculas máquinas assassinas!  Mergulharam na enseada, e os ‘besourinhos assassinos’ perderam seus alvos.

No hotel, visivelmente exaustos, mas satisfeitos, Júlio e Fernanda assistiram ao vídeo e apreciaram as fotos. O material havia ficado excelente! Não havia como negar que o casarão abrigava produtos de alta tecnologia, que apareciam à noite. Caso alguém tentasse registrar sua saída terminava morto. Qual a razão do ataque dos minúsculos monstrinhos metálicos? 

Fernanda montou a reportagem e ofereceu para uma das revistas em que costumava publicar. Foi aceita. A reportagem desencadeou uma megaoperação da polícia federal para confiscar todo o material descrito. Foi um verdadeiro rebuliço! Os policiais invadiram o prédio, revistaram tudo, passaram o pente fino e nada dos tais objetos voadores parecidos com insetos. Até o compartimento com a janela que dava passagem aos monstrinhos voadores estava totalmente vazio. 

Mister Kaufman, o proprietário atual do casarão foi intimado a depor, todavia negou ter qualquer conhecimento dos episódios relatados. Estava tão surpreso quanto os demais. Um homem na sua posição, muito rico e extremamente respeitado, o maior benfeitor do município, não teria motivos para mentir. Ou teria? O inquérito acabou por ser arquivado, algum tempo depois. Ordens superiores! Todavia, os questionamentos permaneceram: por qual motivo Mr. Kaufman mentiria?  O que, de fato, estava sendo escondido naquele casarão?

O jantar para comemorar o sucesso de suas ações estava se tornando hábito. Degustaram uma saborosa refeição, regada a um bom vinho. Mas, não era só isso. A união entre eles se adensava em todos os aspectos. E não desejavam se apartar. Na intimidade do jantar, a paixão aflorou plena, verdadeira. Era um momento em que o amor dos dois se expressava nas carícias cada vez mais sensuais, nos beijos cada vez mais profundos. A calidez dos corpos inebriando um ao outro. Momentos mágicos. Momentos gloriosamente eróticos que os levaram a alcançar um prazer indescritível. Choques de prazer. Não conseguiriam descrever. Só sentir a intensidade de dois corpos em um só.  

Por: Maria Teresa Freire - Jornalista, Escritora, Poeta, Presidente da AJEB – Coordenadoria do Paraná.



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