O QUE A ‘DATA MAGNA’ INTERESSA A VOCÊ, ALÉM DO FERIADO?

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Na sexta-feira  06/03/26, Pernambuco comemorou, com feriado e cerimônia político-militar burocrática,  a denominada Data Magna. Criada por proposição da então deputada estadual Terezinha Nunes em 2017, no bicentenário do importantíssimo movimento denominado Revolução Pernambucana de 1817.  A intenção da deputada foi a melhor possível. Infelizmente,  teria sido melhor chamar a data feriado da Revolução de 1817, como acontece em todos os demais Estados brasileiros. Imaginem, só para citar um exemplo, a Inconfidencia Mineira ser tratada por Data Magna. Ou o 2 de Julho, na Bahia. Ou o 9 de Julho em São Paulo. Ou o sete de setembro, em todo o país. Por essas e outras se diz que a fila das boas intenções é a maior para a entrada no inferno. Além do mais,  não houve a subsequente adoção de uma política de governo para esclarecer a população em geral e especialmente os alunos das redes pública e privada sobre o significado do feriado. Conforme, aliás,  previsto na lei de 2017, conforme lembrou o professor George Cabral em brilhante  conferência na Academia Pernambucana de Letras. Assim, 99% das pessoas gozam de um merecido descanso no 06 de março  sem saber porque.

O pior

É a persistência de alguns equívocos sobre o movimento que comprometem a compreensão do que ocorreu, do seu sentido, da sua importância. E essa ignorância permeia os órgãos oficiais, as mais altas autoridades, praticamente a totalidade do stablisment intelectual brasileiro, especialmente os produtores de narrativas oficiais do Centro-Sul do país. A  caminhada para restabelecer algumas verdades é longa e difícil.  

Preconceitos remanescentes

Pelo menos três distorções graves sobre 1817 devem ser combatidas sempre na tentativa de corrigi-las. A primeira e mais grave não é apenas distorção, é erro grosseiro de compreensão da própria História do Brasil. Costumam chamar 1817 de movimento anti-colonial, quando dois anos antes, em 1815, o Brasil deixou de ser colônia de Portugal e foi elevado à categoria de Reino Unido a Portugal e Algarves. Isso se aprende ainda no ensino fundamental mas muitos escritores e intelectuais renomados, além de políticos, naturalmente, continuam ignorando fato de tamanha relevância. Além do mais, a sede do Reino Unido, a capital, ficava no Rio de Janeiro. Como falar em movimento anti-colonial se a capital do Reino Unido estava localizada  no Brasil? Se houvesse colônia, naquele momento o Brasil era metrópole. 

A segunda, diz respeito ao separatismo. Insistem que a Revolução queria se separar do Brasil. Não é verdade. O movimento era contra o absolutismo, em sintonia com o republicanismo dos Estados Unidos, da América Latina e com os movimentos liberais europeus. Queria transformar o Brasil em República. A bandeira, que começou com uma estrela (PE) ganhou mais duas (PB e RN) e a proposta era agregar as das demais províncias, à medida que fossem aderindo à República.

O terceiro grande equívoco diz respeito à escravidão. Dizem os historiadores sulistas, seguidos por macaqueadores provincianos, que o movimento não incluía a abolição da escravatura. Falso. Começou decretando a liberdade dos escravos que se alistar-se nas forças armadas revolucionárias e iniciou a abolição gradativa da escravidão. Com as naturais resistências da maioria dos senhores de engenho. Proposta inabalável, que dividiu o comando revolucionário e facilitou o seu esmagamento em 75 dias.

A alma da Revolução 

Dela decorrem as grandes lições válidas até hoje.  Das propostas ousadas, muito à frente do pensamento médio que prevalecia na época. O Governo Provisório da Revolução aprovou uma série de medidas que foram colocadas em vigor: foi proclamada a República na Capitania de Pernambuco. Também decretada a liberdade de imprensa e credo.  Instituído o princípio dos três poderes e aumentado os vencimentos dos soldados. Todas essas mudanças iam em direção dos ideais liberais. Repetindo o dito acima, não é verdade que os revolucionários optaram por manter a escravidão. Além de todos os escravos que se alistaram nas tropas revolucionárias receberem imediata alforria,  havia um projeto para a abolição gradual da escravidão, que, pelo curto período do governo revolucionário não foi posto em prática.

Uma outra medida exemplar: ninguém tinha direito a títulos de nobreza. Todas as pessoas, independente da condição social, eram igualmente tratadas por “cidadão” e “vós”. Seria revolucionário se adotado atualmente.  As mulheres tinham os mesmos direitos dos homens. Outra luta permeada de atualidade. Essas duas propostas de 1817 ainda não foram alcançadas no Brasil atual.   Por coincidência, o Dia Internacional das Mulheres ocorre dois dias após a comemoração da data que deveria ser sempre revestida de um caráter de esclarecimento sobre o seu sentido, propostas e significado. Isso tudo sem mencionar os exemplos grandiosos de coragem, heroísmo e martírio, tema que se aprofundado alongaria demais o presente texto. 

Este artigo

É apenas um grão em um grande armazém. No entanto, pode ser uma semente que venha a florescer em corações sensíveis e receptivos à fidelidade histórica. Para que o sentido da Data Magna, melhor dizendo, das  comemorações da Revolução Pernambucana de 1817, que como registrado acima, ainda  não chegou à sociedade, alcance mais alguns formadores de opinião e, principalmente,  professores. Eles são os  multiplicadores naturais de verdades escondidas e propositadamente distorcidas, levando a causa da verdade e do valor histórico para milhares, milhões de jovens. Para que eles passem a conhecer a essência e respeitar os valores de Pernambuco e do Nordeste, para a pernambucanidade possa ir muito  além de meramente se arrepiar com o hino e balançar a cabeça em aprovação à beleza da nossa bandeira. E ao vestir camisa ou manto com as cores de Pernambuco, as pessoas terem a ideia da força e grandeza que isso representa.






Por: José Nivaldo Junior - Publicitário, Consultor e Seguidor de Voltaire. Diretor de O Poder. Da Academia Pernambucana de Letras.


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