AVENTURAS NO ATLÂNTICO: ENTRE ONDAS, GERAÇÕES E HERÓIS

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Marcos Welter em momento especial de lazer, pilotando o jetski ao lado do filho Maicon e da netinha Martina, celebrando a alegria em família.


O mar nunca é apenas mar.

Ele pode ser espelho, pode ser desafio, pode ser lembrança. No dia 17 de janeiro de 2026, às duas da tarde, o Atlântico diante de Balneário Camboriú parecia nos observar da mesma forma que o observávamos da janela do apartamento. Havia ondas médias, vento suficiente para inquietar a superfície, e uma menina de seis anos com sede de novidade.

Martina queria andar de caiaque.

Não era um pedido qualquer. Era aquele tipo de desejo puro que só as crianças sabem ter, sem cálculo de risco, sem estatísticas, apenas vontade de viver.

Descemos com dois caiaques, coletes ajustados e aquela mistura de prudência e entusiasmo que acompanha as aventuras em família. A areia estava quente, o mar parecia mais agitado de perto. As ondas, vistas da janela como simples ondulações, ali na beira d’água revelavam mais força. Não violentas, apenas exigentes.

E o mar exige respeito.

Maicon avançou primeiro, enfrentando a rebentação com firmeza. Eu permaneci com Martina, que aguardava sua vez sem qualquer sinal de medo. Havia brilho em seus olhos, aquele brilho que antecede uma descoberta.

Quando finalmente ultrapassamos as ondas e nos encontramos além da quebrança, senti algo que só o mar proporciona: uma sensação de conquista silenciosa. Martina sorria como quem acabara de descobrir um novo mundo. E eu, aos 79 anos, sentia a juventude não nos músculos, mas na alma.

Remamos cerca de três quilômetros até a Ilha das Cabras. O trajeto foi uma conversa silenciosa entre gerações: o pai conduzindo, a filha aprendendo, o avô persistindo. O mar nos carregava e nos testava.

Na ilha, o chão pedregoso exigia passos cuidadosos. Depois de tanto tempo na água, os pés estavam sensíveis, quase infantis. Caminhamos devagar, observando pássaros de longos bicos avermelhados, donos daquele território rochoso. Martina alternava o olhar entre as aves e os imensos edifícios da orla,  concreto e natureza dividindo o mesmo horizonte.

No extremo da ilha, as ondas batiam com força nas pedras, projetando água para o alto como fogos líquidos. Ali, entre rochas que formavam uma espécie de banheira natural, pequenos peixes coloridos deslizavam como pinceladas vivas. Deitamos na água. Silêncio. Respiração. Gratidão.

Mas o mar nunca termina onde pensamos que termina.

O retorno trouxe sua própria lição. Aproximar-se da praia não significa alcançá-la. Maicon, experiente, conseguiu surfar as ondas com Martina no colo, deslizando até a areia como quem encerra uma cena perfeita.

Eu, porém, fui surpreendido por uma onda que veio por trás, como tantas surpresas da vida. O caiaque inclinou, a proa tocou o fundo, e em segundos fui engolido pela força da água. Rolei na arrebentação, senti o impacto, mas também senti algo maior: a vitalidade de ainda estar ali, enfrentando o mar aos 79 anos.

Levantei, recuperei o remo, puxei o caiaque. Tomei mais um banho de mar, involuntário, mas simbólico. O mar nos derruba, mas também nos ensina a levantar.

Voltamos para casa com a alma salgada e o coração leve.

Na manhã seguinte, o mar amanheceu diferente. Tranquilo. Liso. Como se quisesse compensar a ousadia do dia anterior.

Durante o café, Martina olhou pela janela e disse que queria ver o pai praticar wakeboard. Havia admiração em sua voz, aquele orgulho silencioso que só os filhos sentem.

Seguimos para a marina. Três coletes, habilitação náutica, bicicletas e um jet ski aguardando novas histórias. Garças brancas cruzavam o rio como se nos abençoassem. Passamos pela Marina Tedesco, por iates majestosos, pelos barcos piratas que fazem a alegria dos turistas, e seguimos pela Barra Sul, onde a vegetação da Interpraias se impõe verde e serena.

No mar aberto, Maicon preparou-se. A prancha ajustada aos pés, a corda estendida. Acelerei gradualmente até alcançar velocidade constante. E então ele se ergueu sobre a água.

Não era apenas esporte. Era memória em movimento.

Durante 15 anos, ele e os irmãos representaram o Brasil em campeonatos mundiais, conquistando títulos Pan-Americanos, Sul-Americanos e Campeão Mundial, escrevendo um capítulo raro na história do esporte: três irmãos alcançando feitos expressivos simultaneamente. Aos 48 anos, ali estava ele, não apenas atleta, mas pai.

Martina vibrava como se assistisse a um espetáculo particular. Seus gritos de alegria misturavam-se ao vento. Seus olhos, quase saltando da órbita, registravam cada salto, cada curva. Para ela, não havia estatísticas, apenas magia.

Quando encerramos, seguimos para Taquaras.

Ali, entre pedras e águas transparentes, Martina vestiu máscara e snorkel. Respirar pela boca parecia estranho no início, mas logo se adaptou. Peixes coloridos deslizavam entre as rochas, compondo um balé silencioso. O mundo submerso revelava outra dimensão da vida, discreta, delicada, perfeita.

Passou uma hora. Talvez mais. Quando sugerimos voltar, ela recusou com um gesto simples. Queria ficar. Queria ver mais. Queria viver mais.

À noite, durante o jantar, observei Martina olhando para o pai. Não disse nada. Não precisava.

Seus olhos falavam:

— Meu pai, meu herói.

E naquele instante compreendi algo que o mar sempre soube: as maiores aventuras não estão na distância percorrida, mas nos laços que se fortalecem enquanto remamos juntos.

O Atlântico pode ser imenso.

Mas nada é maior do que uma família que decide enfrentá-lo unida.

Maicon ajustando o wakeboard nos pés, pronto para encarar a diversão nas águas.

Maicon em ação, deslizando sobre as águas no wakeboard com muita habilidade e adrenalina.

Martina dando uma ajudinha ao avô Marcos Welter ao liberar o cabo do wakeboard, em um momento cheio de parceria e diversão.

Martina explorando o mar com snorkel, em um momento de aventura e descoberta.


Por: Marcos Eugênio Welter - Vice-Presidente Nacional da Academia de Letras do Brasil, 
Membro do Conselho Superior Internacional da 
Academia de Letras do Brasil.


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