“CEM SPINAS SEM SPINS” A POÉTICA DA SUPERAÇÃO

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Ronnaldo de Andrade.


Este texto é o prefácio de um  livro de SPINAS que será publicado este ano. Seu autor, o piauiense Francisco José S. Torres, é médico, escritor, autor da bela e bem documentada biografia do seu conterrâneo, o escritor, jornalista, professor e importante crítico literário Assis Brasil, que em breve será lançada no Piauí. Da mesma forma o seu novo livro de poemas “Cem SPINAS sem spins”. 

O leitor ao concluir a leitura de Cem Spinas sem Spins, emergirá  de uma travessia poética onde a superação e beleza se entrelaçam de maneira orgânica e simbólica. A metáfora da espinha — que percorre toda a obra — deixa de ser apenas um signo de sofrimento e se converte em um emblema de renascimento. O poema, nesse contexto, não se encerra: ele se expande, transformando o vivido em linguagem e o humano em permanência estética.

A forma poética Spina revela-se como um gesto de respeito à língua portuguesa, aliada à linguagem simbólica e imagética que caracteriza a poesia. 

Em suas composições, o versátil poeta Francisco José Soares Torres percorre os territórios da vulnerabilidade, da força e, de certo modo, da religiosidade, criando uma ponte entre o íntimo e o universal. 

A estrutura estrófica de oito versos, divididos em duas estrofes crescentes, do poema SPINA, permite que cada texto seja ao mesmo tempo experiência e reflexão, palavra e silêncio.

O Spina intitulado “O Agitado Mundo do Tártaro” exemplifica com vigor essa poética da resistência. A imagem do Tártaro, vinda da mitologia grega, delineia um espaço sombrio de desespero e luta. Contudo, é na beleza — naquilo que Baudelaire nomeou de “flores do mal” — que a dor encontra sua sublimação. Assim, a poesia não busca fugir da angústia, mas iluminá-la.

A linguagem do Spina é densa e simbólica. A presença de imagens concretas, como a “marmita” ou as “puríssimas flores do mal”, cria um contraste entre o cotidiano e o transcendental, sugerindo que o sublime também habita a matéria simples. Essa tensão estética convida o leitor a reconhecer a beleza que nasce da contradição. A liberdade criadora é o cerne dessa forma poética, que  à primeira vista pode parecer, para algumas pessoas, uma camisa de ferro.

O Spina em questão organiza-se em duas partes: a primeira apresenta a ideia central, e a segunda a expande, dialogando com ela e recriando sentidos. Essa estrutura bipartida reflete o próprio movimento da alma humana entre o pensamento e a emoção, a análise e a entrega.

O autor, médico de profissão e conhecedor da filosofia, imprime à sua escrita uma textura intelectual profunda. A fusão entre ciência, arte e reflexão filosófica confere aos Spinas uma densidade rara. As alusões a Hades, à liturgia e às dimensões da morte e da transcendência nos inserem, leitores, em um território simbólico de múltiplas leituras, onde a dor é elaborada como conhecimento.

No panorama da literatura brasileira contemporânea, o poema SPINA desponta como uma voz original e necessária. Sua linguagem propõe um reencontro entre o humano e o poético, entre o existir e o criar. A palavra torna-se, assim, instrumento de resistência, espaço de reinvenção consciente  e possibilidade de cura simbólica.

“Cem Spinas sem Spins” encerra-se, mas o seu gesto permanece. Cada Spina é um testemunho de coragem criadora, um convite à transformação e ao exercício constante da experimentação.

A obra reafirma que, mesmo diante do sofrimento, a poesia segue sendo o território onde a vida se regenera pela força da linguagem, dentro desse ou daquele tipo de Poema, e até mesmo em certos textos em prosa.

Assim, o Spina não é apenas uma forma poética: é uma ética e uma estética da sobrevivência (da língua e da linguagem?). É a flor que nasce entre os espinhos, o símbolo da persistência e da beleza que resistem — e que continuam a pulsar no leitor muito depois da última página.


AMERÍNDIA


Dedilha as fibrilas

Agora bem friáveis

De seus músculos.


Rompe raízes embutidas nos arbúsculos,

Não havendo aqueles encantos excitados,

Onde silvavam vários piados minúsculos.

Homo sapiens, sabidamente ser demente,

Apocalipse acende, em tons crepúsculos.



Por: Ronnaldo de Andrade - Professor, poeta, editor e organizador de seis antologias Spinas, sendo a mais recente Sementes na Ribalta (Editora Anita Garibaldi, 2025) e pela 
mesma editora publicou  Laudelina de Campos Melo: vida, militância e legado. 
E-mail: ronnaldoandrade@yahoo.com | Instagram: @ronnaldodeandradespina



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